Na semana que marca o início dos trabalhos legislativos do segundo semestre não faltou barulho advindo de Brasília para dar mais movimento aos mercados. Neste sentido, parece acertado termos utilizado as duas semanas do recesso para discutir temas de “longo prazo” neste espaço do blog. Há de se considerar que seria impossível falar sobre modelos de teoria dos jogos em uma semana em que discutimos sobre precatórios, voto impresso, Refis e elevação de Selic.

A volatilidade da última sexta-feira de julho foi consequência do “meteoro” apresentado pelo Ministro Paulo Guedes. Os pagamentos de precatórios em 2022 seriam muito maiores do que o originalmente estimado pelo governo e consumiriam todo o espaço do teto de gastos no ano eleitoral. Na prática, isto inviabilizaria por completo o plano do governo de expandir e reformular o Bolsa Família.

A questão é nossa velha conhecida: o Brasil tem um problema quase crônico de gastos que o teto tenta limitar de alguma forma. Porém, a toada das soluções recentes tem ido mais no sentido de colocar despesas antes consideradas obrigatórias para fora do teto do que em realmente solucionar a questão de seu crescimento. Com os precatórios observamos algo semelhante.

Na quinta-feira (05/08) à noite já surgiam no senado ideias para tirar todo o pagamento de precatórios de baixo do teto. Brilhante por uma ótica contábil: a despesa judicial deixaria de comprimir as despesas discricionárias, abrindo espaço para a expansão do Bolsa Família.

Outra alternativa foi ventilada pelo próprio ministro da economia. Ao invés de pagar a totalidade dos precatórios auferidos até julho de 2021 ao longo de 2022, o governo parcelaria parte do valor ao longo de uma década.

Ambas são complicadas. Quando o governo tem uma obrigação e busca uma forma alternativa de efetuar seu pagamento, possivelmente distendendo ao longo do tempo ou então rubricando-a de forma diferente, isto pode ser rapidamente interpretado como um calote. Sem entrar nos méritos da questão específica do crescimento exponencial dos precatórios ao longo dos últimos dez anos, fato é que o mercado adotou justamente esta explicação.

Para complementar a confusão, vimos nova rodada de aprofundamento da crise institucional entre executivo e judiciário, culminando na quinta-feira (05/08) com o cancelamento de uma reunião intra-poderes por parte do presidente do STF. A eleição do ano que vem será de paixões acirradas e antecipação do debate está trazendo a volatilidade e os riscos para este ano.

Sem entrar em méritos políticos, retoma-se um argumento já colocado no ano passado neste blog: cenários de crise minam a confiança nas instituições e no império das leis. Em termos de economia e seu impacto de longo prazo, é muito evidente que isto levará a uma deterioração de fundamentos, queda do crescimento e juros mais elevados.

Soma-se crise institucional e a questão dos precatórios, e tivemos uma reação comensurada nos mercados: desvalorização de ativos brasileiros no geral. Nota-se que isto ocorreu apesar do avanço em direção a privatização dos correios. Os juros futuros subiram, a moeda ficou pressionada e a bolsa caiu. Risk-off completo por aqui.

Finalmente, o Banco Central do Brasil conduziu a 240ª reunião do COPOM. Ficou decidido, conforme nossa expectativa, pela elevação da taxa SELIC em 1%. O comunicado reforça a projeção de uma elevação na mesma magnitude na próxima reunião, também conforme o antecipado. O COPOM cita que pretende elevar a taxa SELIC acima do patamar neutro. Ambos os fatos são características notadamente hawkish do documento.

Nossa leitura é de que o comunicado reconhece que a maior parte da pressão inflacionária seguirá concentrada no curto prazo. Como nossa expectativa contempla inércia maior para o ano que vem, vemos esta indicação do COPOM como um viés dovish. Mantemos nossa projeção de que a taxa atinja 7,5% este ano.

Para a próxima semana, toda atenção seguirá voltada para Brasília, com expectativa especialmente grande em torno da reforma do Imposto de Renda, que pode ser votado nos próximos dias. Ademais, a notícia de que o Ministério da Infraestrutura estaria planejando uma grande rodada de concessões para o final do mês de outubro também deve ser monitorado.

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais.