Depois de algumas semanas de embate político, chegamos à sexta-feira com um ar de coordenação maior entre o Ministério da Economia e a presidência da Câmara. No entanto, isso esconde uma grande volatilidade de notícias ao longo da semana e, principalmente, levanta a dúvida sobre possibilidade de avanço das reformas ao longo do restante do ano (spoiler: achamos que não). Fora isso, eleição americana segue a todo vapor e as especulações sobre os resultados aumentam.

Comecemos pelo principal assunto global: eleição nos EUA. Como é sabido, realizamos um monitoramento minucioso das principais projeções a nível nacional e, principalmente, a nível dos swing states nos EUA. Esta semana foi especialmente significativa, pois as pesquisas começariam a capturar o impacto do debate presidencial e da internação de Donald Trump. Assim, o fato de Joe Biden ter aumentado a vantagem em alguns estados chave como a Florida somente reforça nossa percepção de que ele é o favorito para ganhar a Casa Branca. Em termos de Senado, a segunda corrida mais relevante, aumentam lentamente as chances dos democratas conquistarem este pleito também.

Assim, a perspectiva para o pós-eleição passa a ser mais positiva: uma onda do partido democrata (apelidada de Blue Wave pelos analistas políticos) indica convergência em termos de mais estímulo fiscal, diferente do que ocorreria caso os poderes ficassem divididos (Casa Branca e Senado indo para partidos diferentes). Como os membros do FED colocaram de forma recorrente ao longo da semana que se encerra: mais estímulo fiscal é essencial para garantir que a principal economia do mundo siga em recuperação. Realizamos esta semana também uma pesquisa com clientes institucionais e pessoas físicas sobre as expectativas da eleição. Vale a pena conferir em nosso blog!

No Brasil, a semana começou com o jantar intermediado pelo Senador Renan Calheiros para apaziguar os ânimos entre Rodrigo Maia e Paulo Guedes. Evidentemente, menos tensão política é positiva para a projeção da economia local. As promessas em torno de retomada da agenda de reformas seguiram o script padrão: andamento nos projetos de reforma administrativa, pacto federativo, emergencial, tributária, etc.

No entanto, uma análise pormenorizada do calendário político nos leva a duvidar, novamente, que tal agenda possa avançar. As eleições municipais colocam o congresso em pausa até o final de novembro, enquanto projetos pouco consensuais (e há de se concordar que todos os projetos mencionados acima são pouco consensuais) dependem de intenso diálogo político para formação das maiorias em torno de um texto.

Historicamente, é evidente que este protocolo exige tempo. Soma-se ainda que o retorno do Congresso após as eleições será consumido pelos trabalhos da Comissão Mista de Orçamento. Ou seja, a chance de vermos alguma reforma significativa aprovada este ano é remota (no melhor dos casos).

A consequência natural deste quadro é pensar no futuro do auxílio emergencial ou do Renda Cidadã (Brasil). Nota-se ainda a falta de propostas concretas sobre a segunda, a não ser que o presidente aparentemente está adiando sua discussão. Por outro lado, isto leva a especulação de que o Auxílio Emergencial, um programa excessivamente custoso (R$ 25bi por mês no montante atual de R$ 300) possa ser estendido. Isto colocaria evidente pressão sobre as finanças públicas. Fica, portanto, evidente a raiz dos temores em relação à saúde fiscal do país.

Em termos de alocação, a manutenção deste quadro sugere que os ativos locais seguirão pressionados. A resolução dele depende, pelo lado benigno, pela retomada da agenda de reformas ou, pelo lado de stress, da confirmação dos riscos. Assim, a curva de juros seguirá inclinada, o real sob pressão de desvalorização e a bolsa sem impulso suficiente para alta.

Ressalta-se que este cenário é o esperado no médio caso permaneçamos na presente situação de indefinição. O curto prazo no entanto pode trazer algum alivio, haja visto o tamanho da deterioração ao longo das últimas semanas e a melhora do ambiente político (ao menos no discurso).

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais.