Deixamos finalmente o ciclo eleitoral municipal para trás e, na sequência, a semana trouxe novidades relevantes para os mercados no final deste ano e começo do ano que vem. No setor externo, vento em popa segue valendo com o otimismo em torno das vacinas. Em contrapartida, números relacionados a pandemia seguem preocupantes, o que sugere que os riscos em torno do rally são razoavelmente elevados.

Comecemos esta semana pelo Brasil: a passagem da eleição trouxe a oportunidade de o governo começar a se posicionar em relação ao auxílio emergencial. Como havia sido indicado de forma passageira antes, o presidente Jair Bolsonaro sinalizou que não pretende estender o auxílio, o que o mercado prontamente interpretou como um alívio fiscal. Assim, taxas de juros longos reagiram positivamente a curva diminuiu sua inclinação.

Ainda assim, o calendário para reformas este ano permanece absolutamente reduzido e, como alertamos anteriormente, tudo indica que iremos somente para a votação da LDO este ano. Não menos importante, a consumação de tempo com o embate da eleição para a mesa diretora da Câmara e do Senado (com seus desdobramentos judiciais agora em curso) deve também consumir energia que dos parlamentares, o que efetivamente retira probabilidade de avanço das PECs.

Outro desenvolvimento relevante relaciona-se a inflação: na segunda-feira a ANEEL anunciou a implementação de bandeira tarifária vermelha para dezembro, que reforça o cenário de aceleração do IPCA para este ano (e formaliza-se como choque), mas ao mesmo tempo retira inflação do ano que vem. Isto dá ao Banco Central algo de espaço entre as expectativas e a meta. Houve assim uma antecipação de um aumento de preços que já era esperado. Soma-se aqui ainda que, tudo mais constante, a recente valorização do real deveria contribuir para atenuar pressões inflacionárias do ano que vem.

No cenário externo, a discussão segue entre o avanço das perspectivas positivas com a vacina vis-à-vis a deterioração em torno dos índices da pandemia. Devemos destacar que a mera ameaça de avanço do COVID-19 já é suficiente para provocar aumento da incerteza e reduz a propensão ao consumo e investimento dos agentes econômicos. Isto leva naturalmente a um movimento de redução do nível de atividade, o que provavelmente será observável nos dados de novembro e dezembro deste ano.

A questão fundamental é de timing. Se o roll-out das vacinas for suficientemente rápido, a perda de PIB do quarto trimestre em consequência da restrição ao movimento social poderá ser diluída ao longo do tempo, sugerindo pouco impacto em preços de ativos. Por outro lado, se houver retardo na vacinação, há risco de que o impacto no PIB aumente e, portanto, não passe desapercebido pelos mercados financeiros.

Assim, mantemos viés positivo para ativos de risco no geral. A perspectiva de crescimento global sincronizado na sequência da implementação da vacina em larga escala no mundo dá perspectiva positiva para bolsa e moedas de países emergentes. O monitoramento no momento refere-se a cautela quanto a implementação da vacina, o que sugere que os riscos seguem elevados e que pode haver uma não linearidade na forma como o mercado reage aos dados da pandemia. Ainda assim, o fluxo por enquanto se impõem de forma evidente sobre bolsa e juros.

 

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais.