Uma das funções dos Bancos Centrais é definir a taxa básica de juros de curto prazo da economia do país. No Brasil, essa taxa é conhecida como Selic. Ao tomarem essa decisão, as autoridades monetárias conseguem influenciar as expectativas de inflação e a precificação de diversos ativos financeiros. Na quarta-feira (16/6) tivemos as reuniões dos comitês de política econômica do Brasil e dos Estados Unidos.

O Federal Open Market Committee (FOMC), o comitê de política monetária dos EUA, manteve inalteradas as taxas de juros base da economia e a orientação quanto à compra de ativos financeiros. Isto é, o comitê entende que o ambiente de saída da crise econômica ainda requer fortes estímulos monetários. Contudo, a distribuição das projeções macroeconômicas (dots) e a fala do chair Jerome Powell deram um tom hawkish a reunião.

A mediana das expectativas de inflação dos membros do comitê americano subiu para 3,4% em 2021, contra 2,4% da reunião de março. Ainda que esse aumento seja visto como algo temporário, diversos membros passaram a ponderar também uma alta dos juros em 2023, visão que era minoritária em março. Além disso, Powell também deu indicações de que a discussão sobre tapering, ou seja, a diminuição do ritmo de compra de ativos, pode acontecer nos próximos meses.

Em suma, a autoridade monetária dos EUA começou a dar indícios de que pode iniciar o processo de remoção de estímulos antes do esperado anteriormente. Esse processo, por sua vez, atrai recursos globais para alocação em títulos do tesouro americano e tende a provocar, tanto uma reprecificação de ativos financeiros quanto uma desvalorização das moedas de países emergentes, como o Real.

No Brasil, o Comitê de Política Monetária (COPOM) elevou a taxa Selic em 0,75 ponto para 4,25% ao ano, conforme o esperado. O ritmo de alta vem sendo o mais forte desde 2003 e a autoridade monetária já sinalizou um novo aumento de 0,75 para a reunião de agosto. O comunicado chama atenção pela ênfase do BC contra a inflação, ao indicar a possibilidade de elevar o ritmo do aperto monetário se necessário e de não mais buscar uma normalização parcial da taxa de juros.

Em linhas gerais, a postura adotada pelo Comitê é justificada pelas mudanças na descrição do estado atual da economia. Primeiro: a pressão inflacionária tem sido maior e mais persistente, o reestabelecimento da produção mais lenta e a crise hídrica já impacta as tarifas de energia. Segundo: as revisões de maior crescimento econômico, diminuem os riscos quanto à recuperação. Terceiro: os avanços da vacinação e reabertura podem pressionar os preços de serviços. Por último: as expectativas de inflação para 2021 subiram de 5,1% para 5,8% (acima do teto da meta) e, para 2022, subiram de 3,4% para 3,5%.

Além de buscar controlar a inflação e as expectativas, o aumento da taxa Selic no ritmo atual tem como possível efeito um aumento da atratividade da moeda brasileira, sendo, assim, um efeito oposto ao esperado de uma redução de estímulos monetários nos EUA. Devemos, pois, seguir atentos para quais serão as próximas decisões das autoridades monetárias em cada país e quando elas serão de fato tomadas, para entendermos os efeitos preponderantes e as oportunidades de investimento que surgem a partir delas.

Pelas novas sinalizações das autoridades monetárias, projetamos que a discussão de tapering deve se iniciar nos EUA por volta de agosto ou setembro e uma subida dos juros viria apenas em 2023. Para o Brasil, enxergamos riscos altistas na inflação de 2021 e 2022, projetamos, então, que o COPOM elevará a taxa Selic até 6,5% no ritmo atual. Ressaltamos, entretanto, que essas projeções dependem e podem ser atualizadas após a divulgação de novas informações sobre a dinâmica dos preços e da atividade ao longo do tempo.

Por Adriano Valladão, economista do modalmais.