Bottom line:

  •  Em sua 237ª reunião, o COPOM elevou a taxa SELIC em 75bps, surpreendendo nossa expectativa de uma elevação de 50bps. Em linha com as expectativas, o comunicado tem tom hawkish.
  •  Esperamos elevação de 75bps na próxima reunião do COPOM (inalterado da expectativa anterior). Nossa projeção contempla SELIC encerrando o ano em 5%.

 

Comentário:

Em sua 237ª reunião, o COPOM elevou a taxa SELIC em 75bps, surpreendendo nossa expectativa de uma elevação de 50bps. Em linha com as expectativas, o comunicado tem tom hawkish.

Na avaliação do cenário externo, o Banco Central ressalta a expectativa de retomada sustentada ao longo do ano ante o avanço da vacinação e a implementação de estímulos fiscais. Ao mesmo tempo, surge o COPOM ressalta o questionamento do mercado em relação a trajetória da inflação nas principais economias do mundo e o impacto que esta tem sobre a reprecificação de ativos financeiros, o que torna o cenário mais desafiador.

Em relação à atividade, nota-se preocupação com a possibilidade de que esta perda dinamismo em consequência das medidas de restrição impostas para conter o avanço do COVID, apesar das surpresas positivas no final do ano passado e outros indicadores mais recentes. O comitê ressalta a incerteza em relação aos dados do primeiro e segundo trimestre.

Sobre inflação realizada, o comitê destaca a maior pressão no curto prazo advinda do preço das commodities e do cambio desvalorizado. Ainda assim, o comitê mantém que “Apesar da pressão inflacionária mais forte no de curto prazo se revelar mais forte e persistente que o esperado, o Comitê mantém o diagnóstico de que os choques atuais são temporários”. Destaca-se novamente a avaliação de que as medidas de inflação subjacente estão em nível acima do compatível com o cumprimento da meta.

Sobre expectativas no cenário básico (juros FOCUS e Câmbio partindo de R$/USD 5,70 e evoluindo segundo PPC), o COPOM vê inflação em 5% para 2021 e 3,45% para 2022 (ante 3.6% e 3.4% anteriormente, respectivamente). Este cenário supõe juros subindo para 4,50% em 2021 e 5,5% em 2022 (3.25% e 4.75% anteriormente). O comitê adiciona seu cenário para preços administrados, que avançam 9,5% em 2021 e 4,4% em 2022. Em termos de expectativa, nota-se evidentemente a pressão inflacionária neste ano e a elevação do risco no ano que vem.

Nota-se evidente downplay na forma como o comitê encara os riscos para a inflação advindos de menor atividade econômica, com retirada da parte do comunicado que relaciona elevação da incerteza com uma trajetória da poupança precaucional.

O destaque do comunicado encontra-se ao final, com o comitê afirmando que o cenário atual não prescreve mais um grau de estímulo monetário extraordinário. O somatório de PIB forte com expectativas de inflação acima da meta no horizonte relevante e a perspectiva de que a inflação comece a ameaçar o limite superior da banda de tolerância em 2021 são utilizados como justificativa para o início do ciclo de alta, que, não obstante, ainda é caracterizado como de “normalização parcial”.

Adiciona-se que o COPOM argumenta por um ritmo mais célere traz benefícios em reduzir o risco de não cumprimento da meta este ano (na nossa leitura, uma evidente referência a provocar apreciação do real).
Finalmente, o comitê já antecipa que a próxima decisão será de uma elevação de 75bps tal qual a de hoje, a menos que haja mudança significativa nas expectativas de inflação ou no balanço de riscos.

Em suma, o comunicado tem leitura evidentemente hawkish. Ele elenca surpresas positivas na atividade e coloca menos ênfase na possibilidade de evolução negativa ao longo dos próximos meses em consequência de retomada das medidas de restrição a mobilidade.

A argumentação do frontloading relacionado ao risco de estouro da faixa de tolerância em 2021 parecem relacionadas aos riscos de nova rodada de desvalorização cambial. Para compensar este risco, o Banco Central atuará para a “normalização parcial” de forma mais acelerada. Por outro lado, a preocupação com os horizontes mais longos sugere que o Banco Central está atento para não ter sua credibilidade questionada.

Assim, esperamos elevação de 75bps na próxima reunião do COPOM, com riscos de elevação de 100bps. Nossa projeção contempla SELIC encerrando o ano em 5%.

 

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais. | Modalmais Economics