A semana chega ao fim com a continuação das tendências observadas no passado recente. Por um lado, há aumento na quantidade de infectados pelo novo coronavirus em diversas partes dos EUA e do sudeste asiático, com algumas movimentações de restrição de movimento que ensejam maior preocupação. Por outro, a atividade global e local segue reagindo positivamente à reabertura do comércio e Brasília permanece sem sustos em termos de política heterodoxas. Na margem, a manutenção deste movimento permitiu que a bolsa brasileira atingisse novamente o patamar de 100.000 pontos.

No cenário internacional o destaque da semana foi a divulgação do ISM non-manufacturing nos EUA. O índice cíclico subiu ao patamar de 57.1, no maior avanço mensal já registrado pelo indicador desde o início de sua divulgação em 1997. A recuperação econômica está intimamente ligada tanto com a perspectiva de política monetária extremamente expansionista (que não deve acabar no médio prazo) como também com a manutenção da reabertura da economia.

Sobre o primeiro elemento (política monetária) temos pouca incerteza: Jerome Powell deixou claro na última reunião do FED que mesmo um período prolongado de desemprego abaixo de 4% não foi capaz de gerar pressão inflacionária sustentada. Ou seja, ainda que observemos uma retração um pouco mais acelerada da taxa de desemprego ao longo dos próximos meses, o nível total de emprego nos EUA permanecerá abaixo do que prevaleceu ao longo de grande parte da década passada, o que garantirá inflação baixa. Assim, não esperamos alterações significativas por parte do FOMC ao longo dos próximos meses (a não ser adoção de forward guidance na reunião de setembro).

Outro elemento a ser contemplado no universo inflacionário são os dados de preços advindos da China. Foram divulgados durante a semana os dados de inflação ao consumidor e ao produtor. A última surpreendeu marginalmente para cima, mas segue evidentemente em território negativo. Este comportamento deverá prevalecer até o final do ano ao menos, o que permite “exportação de deflação” para o restante da economia global.

Por outro lado, os dados de contaminação seguem preocupando. No momento em que escrevo (sexta-feira), a taxa de infecção no sun belt é elevada, com crescente pressão sobre o sistema hospitalar da região. Ainda que os governos resistam a retomada de medidas de isolamento social, nosso pressuposto de trabalho é que o limite dos governos seria pressão sobre o sistema de saúde (i.e. taxas de ocupação de leitos muito elevadas). Dado que a retomada da atividade econômica é função da redução do isolamento social, resta evidente o motivo da preocupação com este item.

Adiante ressaltamos o risco do término do estímulo fiscal nos EUA, que tem servido de forte amparo para a renda das famílias. O estímulo atual termina em setembro sendo que a expectativa central é de sua renovação, principalmente porque o desemprego ainda estará elevado (provavelmente) para padrões históricos neste momento. A não renovação dos programas de auxílio seriam uma surpresa evidentemente negativa para mercados.

Finalmente, em termos geopolíticos, seguimos observando os desdobramentos relativos a Hong Kong com apreensão. Enquanto a troca de farpas entre EUA e China permanecem, merece destaca que não houve nenhuma ameaça à relação comercial ou ao acordo firmado no começo do ano entre ambos os países. Este é um segundo pressuposto relevante para estabilidade dos mercados. Ainda assim, a chance de um policy mistake não pode ser descartado.

No Brasil, destaca-se os dados de atividade e inflação publicados ao longo da semana. Em maio, as vendas no varejo (PMC) surpreenderam positivamente na quarta-feira, enquanto os serviços (PMS) vieram abaixo do esperado pelo mercado. A perspectiva para junho é positiva, visto avanço de indicadores antecedentes relevantes para a atividade.

Em termos de inflação, tivemos a primeira leitura mensal positiva do IPCA em três meses. O índice foi puxado principalmente por preços administrados e alimentação. Por outro lado, medidas relevantes para o Banco Central, como os núcleos de inflação e serviços subjacentes, seguem mostrando absoluta tranquilidade, o que enseja manutenção de política monetária expansionista.

Sobre isto, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, deu informações relevantes ao longo da semana. Sua indicação é de que o COPOM vê uma aceleração da atividade na ponta e que há de se tomar cuidado com a relação entre esta aceleração e seu reflexo na inflação. Mantemos a projeção de mais um corte na SELIC, mas reconhecemos (como já dito em outros comentários) que isto pode não ocorrer na próxima reunião do COPOM. Ainda assim, o patamar de 2.25% é inegavelmente estimulativo, o que garante sustentação pelo lado da política monetária para a recuperação econômica.

Finalmente, Brasília segue razoavelmente tranquila. O vai-e-vem com a indicação para o Ministério da Educação continua, mas a sinalização de maior tranquilidade entre poderes nas indicações do presidente Jair Bolsonaro demonstra a sua intenção de manter a situação razoavelmente controlada no curto prazo (i.e., menos vol). Ainda assim, como diversos membros do congresso já comentaram, a sensação preponderante é de incerteza sobre quanto tempo este período de tranquilidade nas relações institucionais perdurará. Por enquanto, seguimos aguardando a proposta de reforma tributária.

Em termos de avaliação para alocação, mantemos nossa preferência por ativos reais (bolsa) ante os quatro elementos que delimitam nossa avaliação de cenário: (i) política monetária expansionista, (ii) recuperação da atividade; (iii) controle da epidemia e (iv) tranquilidade política em Brasília. Como fica evidente no texto acima, temos razoável certeza sobre os pontos (i) e (ii), enquanto o (iv) não parece ser causa de preocupação imediata. O que nos causa apreensão é essencialmente a evolução da pandemia. Ainda assim, supondo-se que não retomemos medidas de isolamento social, a expectativa é que a bolsa siga com desempenho positivo, enquanto os vértices longos da curva de juros podem mostrar alívio caso haja percepção de redução do risco fiscal atrelado ao Brasil.

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais.