O interessante em acompanhar de perto os mercados financeiros e as instituições que os influenciam é que com alguma frequência vemos alterações que terão impacto ao longo de um horizonte significativo de tempo. Esta semana, o COPOM, em sua última reunião do ano, introduziu alterações em seu comunicado que certamente guiarão o mercado ao longo dos próximos meses.

Comecemos rapidamente pelo cenário externo: na medida em que nos aproximamos do final do ano, o calendário e o noticiário ficam mais brandos. O determinante do desempenho dos mercados permanece a pandemia e sobre isto já expusemos anteriormente a visão divergente entre o curto prazo, impactado pelo aumento das contaminações, e o longo prazo, beneficiado pelas vacinas. Neste sentido, o início das imunizações no Reino Unido são mais uma sinalização positiva.

No Brasil, a inflação medida pelo IPCA surpreendeu amplamente as expectativas dos analistas no mês de novembro. Os alimentos foram, novamente, os vilões do movimento e vemos demora na retração do choque.

Mais relevante que isso, houve o reconhecimento tácito por parte do Banco Central de que há uma aceleração das expectativas de inflação e que esta motiva uma postura mais atenta por parte da autoridade monetária.

Explica-se: sabemos que política monetária não tem capacidade de impactar na inflação no curto prazo, mas está sujeita a defasagens que consomem, normalmente, ao menos três trimestres para se manifestarem. Ou seja, se o Banco Central tenciona impactar a inflação de 2022, o momento correto para mudar a taxa SELIC será ao longo do ano de 2021.

Assim, o COPOM alterou o comunicado e mostrou que o forward guidance (i.e., uma indicação de suas intensões futuras) como instrumento de política monetária pode estar com os dias contados por conta da aceleração das expectativas de inflação longas. Em consequência desta alteração, o mercado passou a precificar maior chance de elevação da taxa SELIC no ano que vem.

Já as nossas projeções internas anteveem a retirada do forward guidance na reunião de janeiro e elevação da taxa SELIC a partir da reunião de junho. Por enquanto, mantemos projeção de taxa SELIC ao final de 2021 de 3.5%, mas o viés é de alta.

Em termos de impacto desta movimentação, nota-se principalmente a elevação da parte curta da curva de juros (DI JAN 22), enquanto vértices mais longos caem, configurando um achatamento (flattening) da estrutura a termo. Via de regra e tudo mais constante, este movimento está associado a fortalecimento da moeda local visto a expectativa de maior carrego. Somando-se ainda a intervenção do Banco Central na moeda e a manutenção das perspectivas de que o Teto de Gastos não será rompido no ano que vem, o destaque em termos de ativos foi a apreciação do real.

Para frente, esperamos que a guinada do Banco Central siga favorecendo a redução da inclinação da curva e com isso leve a um fortalecimento do real. A bolsa pode ser beneficiada mais pelo ambiente propenso ao risco a nível global (com perspectiva de vacina sendo o principal vetor nesta direção) do que por qualquer outro motivo, visto que, tudo o mais constante, elevações de juros deveriam retirar ímpeto da renda variável. O contra-argumento aqui é evidente: mesmo que a SELIC suba no ano que vem, a maior probabilidade é que ela permaneça em terreno estimulativo.

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais