O cenário macroeconômico de um país está sempre intimamente vinculado à postura da autoridade monetária. Por ser capaz de determinar as taxas de juros de curto prazo, esta tem um impacto significativo na formação de expectativas na economia, o que afeta a precificação dos ativos financeiros.

Por isso, fazemos sempre questão de acompanhar muito de perto as movimentações em torno dos comunicados do COPOM e as alterações que elas trazem. Nesta semana que se encerra o Banco Central elevou a taxa SELIC em 0,75% para 3,25%. O movimento foi em linha com nossas expectativas, bem como a manutenção da sinalização de mais uma alta de 0,75% na reunião de junho.

Um ponto relevante de discussão em torno da comunicação da autoridade monetária era em relação a manutenção da expressão “normalização parcial”, que indica que o objetivo final do processo corrente é manter a taxa em patamar estimulativo ao final do ciclo. No comunicado desta semana a expressão foi mantida, mas com diversas ressalvas que possibilitam a retirada dela na próxima reunião.

De toda forma, o mercado questiona de forma veemente a possibilidade de uma “normalização parcial”. Tem-se avanço nas expectativas de inflação este ano, que podem contaminar as expectativas do ano que vem junto com o perene risco político dada a proximidade do pleito de 2022 e, principalmente, os diversos riscos associados à política fiscal.

Por outro lado, a manutenção da taxa do desemprego efetiva em patamares extremamente elevados contribuiu para pouca inflação pelo lado da demanda. Supondo que os choques dissipem de forma rápida e não ocorra real alteração do arcabouço fiscal (i.e., o teto de gastos seja mantido e respeitado), poder-se-ia imaginar um cenário em que a inflação efetivamente acabe surpreendendo as expectativas do mercado para baixo.

Este parece ser o cenário do COPOM no momento. Tanto é que, nas suas projeções, ele aponta uma evolução da SELIC para 5,5% no final do ano, o que levaria a inflação abaixo da meta no ano que vem (3,4%). Nossas expectativas por outro lado apontam para a SELIC em 5% no final do ano e uma inflação um pouco acima da meta no ano que vem.

Evidentemente vemos riscos ao cenário. O primeiro dele é baixista: a apreciação do real ao longo das últimas semanas pode ser um vetor desinflacionário. Por outro lado, a evolução dos preços de commodities, uma retomada mais acelerada da economia ou a deterioração dos fundamentos por conta da piora nas expectativas fiscais são todos motivos muito justificados de cautela no momento. Por isso mesmo que definimos como maior risco à nossa projeção da SELIC que o ciclo do ano que vem (que levaria a taxa de 5% para 6,5%) seja antecipado para este ano, ainda não é nosso cenário base, mas definitivamente é a alternativa com maior probabilidade.

Por fim, os dados de mercado de trabalho nos EUA (o famigerado Payroll) vieram muito abaixo das expectativas do mercado. Alertamos na quinta-feira quanto ao tamanho do desvio padrão nas expectativas, mas evidentemente a magnitude do erro foi maior do que o próprio desvio padrão sugeria.

Não alteramos nossa expectativa de que o tapering seja discutido ao longo do segundo semestre e efetivamente implementado no começo de 2022. A leitura de hoje (sexta-feira, 07/05) retira uma parte da pressão para uma antecipação desta expectativa.

Há de se ressaltar sempre que a recuperação não será em linha reta e que somente um dado não altera o cenário de retomada na economia americana, que esta recuperação em particular, será distinta das anteriores por conta das características da crise. Em termos de mercado o dado provavelmente tem impacto na discussão sobre a segunda derivada da recuperação neste momento.

Em suma, tivemos surpresas em todos os sentidos no COPOM, mas o movimento de fortalecimento do real se intensificou. Por outro lado, menos discussão de tapering alivia a pressão sobre os juros nos EUA, o que é positivo para emergentes.

Finalmente, pouco ruído político também contribui para ativos de risco no Brasil. Ainda assim, seguimos monitorando cuidadosamente desenvolvimentos em relação ao orçamento deste ano, que ameaçam novamente deslanchar. Vale ressaltar ainda que a surpresa com a extinção da comissão mista da reforma tributária atrasa ainda mais a perspectiva de reformas significativas no Brasil.

Na semana que vem estaremos especialmente atentos ao IPCA e aos dados de atividade, além de um olho sempre voltado para Brasília, a situação fiscal e o orçamento.

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais.