Escrever o comentário semanal é sempre um grande exercício de síntese. Afinal, notícias das mais diversas ocupam tempo significativo de análise e tem implicações profundas. Tentar resumi-las de alguma forma pode ser extremamente difícil. Esta semana não foi diferente. Sem nem citar o cenário internacional, tivemos novidades relevantes de política monetária (divulgação do RTI), divulgação de inflação (IPCA-15), aprovação do orçamento e desdobramentos relevantes da pandemia. Ou seja, praticamente um livro inteiro de assuntos que tentaremos resumir em um artigo de blog para demonstrar seu impacto nos mercados.

Comecemos pela política monetária e inflação. A leitura do IPCA-15 de março veio praticamente em linha com nossas expectativas, mostrando avanço de 0,93% no mês. É, sem dúvida, um número forte e sua composição chama atenção. Vimos um avanço significativo de bens industriais, puxados em parte por um forte aumento no preço do etanol. No entanto, mesmo desconsiderando este efeito, ainda assim os industriais teriam avançado forte 0,55% no período avaliado.

A pressão inflacionária e o avanço das expectativas para o ano de 2021 estão por trás da alteração da postura do Banco Central. Tanto a ata divulgada na terça-feira, como o Relatório de Inflação divulgado na quinta-feira reforçaram o tom colocado pelo COPOM em sua última reunião: há clara intensão de seguir retirando estímulo monetário de forma a manter a inflação deste ano dentro da banda de tolerância, enquanto a preocupação com a possibilidade de contaminação das expectativas de 2022 é crescente. Lemos isso como uma expressão de alerta do Banco Central e projetamos para as duas próximas reuniões: elevação de 0,75% da SELIC em cada.

Outra evolução relevante foi a aprovação do orçamento no Congresso, que segue agora para a sanção presidencial. Causa-nos preocupação a forma utilizada para encaixar todos os gastos previstos dentro do teto e a suposição de que teremos 30bi ao menos em contingenciamento, parece razoável.

Ao mesmo tempo, desenvolvimentos políticos mostram um aumento da relevância política do Parlamento, que ocupa espaços deixados em aberto por outros atores políticos. Se esta é uma tendência definitiva que marcará o restante do mandato ou não ainda está em aberto, mas o risco está em que novos episódios de enfrentamento acabem gerando reações mais duras do Congresso, como foi alertado pelo Presidente da Câmara, Arthur Lira, em seu discurso na quarta-feira à noite.

Finalmente, ao final de uma semana com manutenção de índices negativos em torno da pandemia, reforçamos aqui nossa posição de que a saída para a crise ocorrerá quando a imunização em massa garantir uma retomada da vida cotidiana normal. Neste sentido, o aumento do ritmo de vacinação ao longo da semana é evidentemente um marco relevante.

Estamos otimistas em relação ao ciclo de vacinação. Permanecem inúmeros percalços no caminho, principalmente relacionados à importação do IFA. No entanto, atingimos na quinta-feira a marca de média móvel diária de 500 mil doses aplicadas, algo que apontamos como essencial ao final do mês passado. Nossa projeção atualizada mostra que os primeiros efeitos positivos da vacinação devem ser vistos no começo de maio. Ao mesmo tempo, a melhora significativa que permitiria a retomada de hábitos cotidianos normais, deve ocorrer ao longo do terceiro trimestre.

Em suma, uma semana de desenvolvimentos de complexa junção. A trajetória da pandemia ainda é negativa e afeta a atividade econômica, gerando aumento na pressão política por mais gastos. Por outro lado, os primeiros sinais de um médio prazo mais calmo aparecem no horizonte. Nossa recomendação segue por cautela, com proteção da volatilidade. Encerramos como na semana passada: “Acreditamos que a taxa SELIC, mesmo em alta, permanecerá em território estimulativo, o que sugere mais rotação entre ativos na bolsa, do que de fato realização. Por outro lado, o aumento do carrego deve dar sustentação ao real contra o dólar, enquanto as taxas curtas mais elevadas ajudam a reduzir a inclinação da curva.”

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais.