Um ditado comum diz que o cachorro abana o rabo e não o rabo que abana o cachorro. Este é comumente replicado em rodas de conversa (agora virtuais) sobre o mercado no Brasil. Se os ativos locais se comportam de uma ou outra maneira, isto é muito mais consequência da dinâmica global do que fatores locais. A semana dos mercados, encurtada na segunda-feira pelo feriado nos EUA e na sexta-feira pelo feriado em São Paulo, foi uma excelente representação deste ditado.

Dois eventos mereceram destaque no exterior. Por um lado, a OPEP não conseguiu chegar a uma conclusão sobre um plano de elevação de produção de petróleo. Apesar disto ser encarado como positivo para o preço da commodity, fato é que o cenário de risk-off registrado em boa parte da semana contribui para um arrefecimento de preços. Há considerável especulação sobre os próximos passos da OPEP, com expectativa de um novo encontro ser marcado ainda na primeira quinzena de julho.

Por outro lado, as minutas da última reunião do FOMC (o comitê de política monetária do Banco Central dos EUA, FED) reforçam um ponto que temos colocado de forma insistente: vivenciamos uma época de dois choques simultâneos na economia global e ambos são relacionados a covid.

O primeiro refere-se à necessidade de fechamento de diversas economias asiáticas por conta de novos surtos da pandemia. Isto leva, naturalmente, a uma exacerbação dos problemas relacionados aos gargalos da cadeia produtiva global que já se mostram desde o último trimestre do ano passado. Apesar de entender isto como passageiro, o próprio FOMC reconhece que é difícil mensurar quanto tempo levará para que o choque se dissipe e há riscos evidentes em torno de maior pressão inflacionária.

O segundo, refere-se a um choque de demanda por conta da reabertura de grandes partes das economias desenvolvidas (notadamente EUA e Europa). Há riscos relacionados a variante delta (no sul europeu e Reino Unido, principalmente), mas a impressão geral é que dificilmente voltaremos a períodos de depressão profunda da atividade econômica. O aumento da demanda por serviços é algo que temos mapeado desde o final da segunda onda. Novamente, há grande incerteza sobre a extensão e duração deste choque.

No entanto, o somatório disso tudo parece ser um gradual abandono pelo mercado do reflation trade, ou seja, da postura que prevaleceu desde a eleição dos EUA. Os títulos de dez anos norte-americanos estão em ampla reprecificação desde o começo do mês e isto tem movimentado de forma intensa os mercados. Concomitantemente também, vemos a queda das bolsas americanas e, para finalizar o risk-off, valorização do dólar desde o final do mês passado.

Ou seja, um cenário extremamente desafiador para economias emergentes em geral e o Brasil em particular que, dadas as especificidades e fragilidades macroeconômicas, depende fortemente de um ambiente global tranquilo.

Pelo lado positivo, destaca-se novamente o avanço da vacinação, com perspectiva de que até o final do mês a população acima de 30 anos já esteja vacinada nas grandes capitais do Sudeste. Por estas serem também o grande centro populacional do país, isto permitirá novo ganho em termos de porcentagem da população total vacinada.

Ainda não vemos a turbulência presente como algo definitivo, mas reconhecemos que o terceiro trimestre será de volatilidade na medida em que os dois choques descritos acima se estabilizam e o cenário de atividade, mercado de trabalho, inflação e política monetária global ficam mais claros. Até lá, semanas curtas como essa ensejam sempre um pouco mais de cautela.

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais.