Light at the end of the tunnel? A leitura dos mercados e dados econômicos tem sido tudo menos trivial ao longo das últimas semanas. Cenários de incerteza absoluta levaram a precificação dos riscos de cauda mais extremos em fevereiro e março. No entanto, a forte atuação de Bancos Centrais, dos governos e o fluxo de notícias menos negativo em termos de expansão da pandemia do coronavirus levaram a uma reprecificação significativa ao longo deste mês.

Esta última semana foi exatamente assim: os dados econômicos começam a confirmar o cenário fortemente contracionista antecipado para o segundo trimestre do ano. Por outro lado, a injeção de liquidez por parte dos bancos centrais ao redor do globo começa a se fazer sentir nos prêmios de risco e, principalmente, o fluxo de notícia contempla (finalmente) notícias de reabertura de algumas economias severamente afetadas pelo coronavirus. Evidentemente, a reabertura será lenta, gradual e sempre passível de novas ondas de contaminação. Porém, se há algumas semanas atrás falávamos somente de novas restrições, hoje falamos de retirada de restrições. Não há como negar o impacto positivo disto.

Nos EUA, os dados de mercado de trabalho semanais reforçam em larga escala o mesmo já observado nas últimas duas semanas: teremos um severo aumento do desemprego ao longo do segundo trimestre. Ao mesmo tempo, a divulgação das vendas no varejo para março, que ainda não contempla 100% de lockdown, mostram que o consumidor americano reverteu para o comportamento esperado de estocagem: queda em todas as principais categorias exceção feita a bens básicos de supermercados e farmácia.

Em termos de mercado financeiro, a atuação do FED no final da semana passada, que sedimentou definitivamente a postura de “whatever it takes” do Banco Central americano, garantiu uma retomada da redução dos spreads de crédito, o que é essencial neste momento de crise: garantir o funcionamento do mercado de crédito auxiliará que empresas e famílias consigam suavizar este momento de crise e facilitará a retomada uma vez que o contato social possa ser reestabelecido.

Na Europa, para além das notícias otimistas com reabertura, sobra decepção em relação a atuação vagarosa do Eurogroup em termos de atuação fiscal a nível de Zona do Euro. Os bonds italianos sofreram forte pressão ao longo desta semana, registrando elevações consideráveis em todos os vértices. A falta de acordo em torno de medidas de socorre efetivamente grande postergará tanto o momento da retomada econômica, como também sua força.

Comentando rapidamente a China, os dados do primeiro trimestre corroboram anedoticamente o esperado quando pensamos em termos econômicos: houve forte retração da atividade em consequência do lockdown.

Finalmente, o petróleo teve mais uma semana volátil e de perda no WTI. Essencialmente, entende-se que o acordo firmado no final de semana pela OPEP+ e referendado por países que não participam do bloco não foi suficiente para compensar a forte queda na demanda que ocorrerá por conta da desaceleração global.

Note-se que Arábia Saudita e Rússia seguem em contato para eventuais novas atuações, enquanto também observamos a possibilidade de atuação do governo americano para subsidiar uma redução do output diário dos produtores locais. Apesar disto, estes problemas não solucionam o ponto fundamental: a queda de preço mais abrupta pode ter sido causada pela oferta, mas a manutenção das cotações baixas também tem direta relação com a demanda. Assim, ainda que o acordo ataque pelo lado da oferta, enquanto não tivermos notícias positivas em relação a crescimento global será difícil ver uma estabilização do preço da commodity.

No Brasil, a semana trouxe finalmente o desfecho dos rumores em torno da saída do ministro da saúde. A substituição de Henrique Mandetta ocorreu na quinta-feira e o novo ministro da saúde, Nelson Teich, é aliado do presidente Bolsonaro. No entanto, o discurso inicial do novo ministro não indicou nenhuma alteração significativa nos rumos do órgão.

Por outro lado, a relação entre o executivo e o legislativo segue deteriorando. Vemos a manutenção de projetos que são fiscalmente perigosos no médio prazo e alerta-se especialmente que os riscos para o endividamento público no Brasil não devem ser menosprezados. Neste sentido, a apresentação do projeto de orçamento para 2021 (PLDO) coloca a condicionalidade necessária ante a extrema incerteza e por hora mantem a âncora fiscal do teto de gastos. Ressaltamos que medidas que visem minar este elemento podem ganhar força ante a queda no PIB e isto arriscaria as reformas introduzidas desde 2016.

Concluímos aqui tomando todas as informações anteriores como indicador de um dos pontos centrais destacados nas últimas semanas: a solução completa para a crise que vivemos atualmente passa necessariamente pelo campo da saúde (visto que é esta sua origem). Neste sentido, atuação de governos e bancos centrais servem para atenuar os efeitos econômicos, não para solucioná-los.

Os movimentos das últimas duas semanas foram abruptos em todas as classes de ativos. Seguimos acreditando que boas oportunidades surgiram com a forte queda dos mercados em março, mas a trajetória de recuperação será diferente para cada ativo. Em termos de alocação, gostamos de bolsa a longo prazo e vemos com cautela os preços na curva de juros (tanto o que está precificado no curto prazo, como seu grau de inclinação).

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais