Chegamos ao final de agosto e a última semana foi uma perfeita metonímia do que observamos ao longo de todo o mês: discussões fiscais intermináveis somadas a dúvidas sobre a permanência de Paulo Guedes a frente do ministério da economia.

Comecemos pelo cenário externo, onde destacamos a conferência de Jackson Hole do FED. O discurso de Jerome Powell ontem (quinta-feira 27/08) trouxe novidades relevantes para o arcabouço de política monetária nos EUA durante os próximos anos.

Primeiramente, o FED adotou o novo Statement on Longer-Run Goals and Monetary Policy Strategy e introduziu no seu arcabouço de política monetária o objetivo de atingir a inflação em média de 2% ao longo do tempo. O FED não se compromete com uma fórmula mecânica para atingir este objetivo, com isso efetivamente descartando a possibilidade de agregar um elemento extra a Taylor Rule que contemplasse o acumulo das decepções em relação como foi especulado ao longo do review de política monetária.

Em termos de mercado de trabalho temos mudanças relevantes também. Estas vão no sentido de reforçar o exposto por Powell ao longo do último trimestre: um longo período de taxa de desemprego baixo ao longo do ciclo que se encerrou com a crise do COVID não foi capaz de provocar uma aceleração sustentada da inflação ao longo do tempo.

Na prática, o FED formalizou uma postura de maior flexibilidade em termos de política monetária, adicionando margens mais amplas de interpretação tanto em torno de seus dois mandatos (inflação e emprego). Os riscos de médio prazo são que a atual postura leve a complacência em relação a aceleração inflacionária caso o “new normal” reverta em direção a um mundo com inflação mais pronunciada. Por enquanto, no entanto, esta preocupação parece ter ficado de lado.

Em termos de próximos passos, a adoção do Statement on Longer-Run Goals and Monetary Policy Strategy já durante Jackson Hole reforça a nossa hipótese, mantida desde meados do segundo trimestre, de que o FOMC adotará revisões no seu forward guidance já na reunião de setembro do FOMC.

Na esfera política, a conclusão da convenção do Partido Republicano e a nomeação de Donald Trump para a disputa presidencial encerrou oficialmente o período preparatório do pleito. Este passará a estar cada vez mais presente no noticiário.

Aqui no Brasil a semana começou com a expectativa de anuncio do “Plano Big Bang” pelo Ministro da Economia Paulo Guedes na terça-feira. No entanto, as expectativas foram novamente frustradas já na segunda-feira, abrindo espaço para extensa especulação sobre quanto tempo Paulo Guedes seguirá no governo. Esta discussão se intensificou com as declarações do presidente Bolsonaro na quarta-feira em Minas.

Fato é que o governo até agora não apresentou formas de financiar o ousado plano social chamado de “Renda Brasil”. Para compensar isto, o auxílio emergencial deve ser estendido até dezembro, mas com parcelas menores de transferências do que as que vigoraram até agora. Isto deve reduzir o custo mensal do programa para cerca de R$ 25 bilhões. Juntamente com o atraso do Renda Brasil, os alicerces do ajuste fiscal necessário no país também foram, novamente, adiados.

Essencialmente, reforçamos a tese já exposta ao longo das últimas semanas: existe uma relação estatisticamente significativa entre a evolução da dívida do governo, sua perspectiva e a incerteza econômica. Assim, enquanto o governo posterga divulgação (e implementação) de medidas que ajudam a nortear as perspectivas fiscais, manteremos elevado grau de incerteza. Por sua vez, isto impactará nas decisões de consumo e investimento dos agentes, forçando um ritmo mais lento de crescimento uma vez superada a crise do COVID-19.

Voltando à teoria, temos três alternativas para o cenário de elevados gastos públicos e aumento do endividamento: privatizações (que não estão ocorrendo), ajuste das contas (que também parecem distantes) e inflação. Apesar desta última não fazer parte do nosso cenário, parece evidente que houve aumento da discussão em torno do assunto ao longo da última semana. Sabemos, infelizmente, os efeitos nefastos que um processo inflacionário descontrolado tem no longo prazo. Nosso cenário base permanece de ajuste, ainda que mais demorado, mas os sinais políticos precisam reforçar nossa tese.

O cenário de alocação é, portanto, dúbio. Por um lado, a postura do FED favorece reflação, com elevação das bolsas, aumento da inclinação da curva de juros americana e enfraquecimento do dólar global. Por outro lado, a delicada posição política e fiscal no Brasil enseja cautela. Cremos que a questão fiscal pode ser equacionada, o que seria positivo para ativos brasileiros. Sendo isso verdade, mantemos a perspectiva positiva para bolsa. Como dito anteriormente, a determinação do modelo que equacionará nossa posição fiscal será essencial para determinar a perspectiva para as distintas classes de ativos.

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais.