Começamos oficialmente o mês de abril e, pela primeira vez em algum tempo, o fluxo de notícias parece ter virado de absolutamente negativo (que levou mercados a precificarem os piores cenários de cauda), para marginalmente mistas, o que naturalmente levou a uma nova configuração de preços.

No cenário internacional, o destaque é para a aparente melhora nos dados de contaminação em alguns países europeus, notadamente a Itália. Ao mesmo tempo, uma série de países começaram a fazer planos para redução das medidas de isolamento social. Notadamente, Áustria, Republica Tcheca e Dinamarca iniciarão este processo ao longo da segunda metade do mês. Ao mesmo tempo, as principais autoridades americanas anunciaram que estão cautelosamente otimistas com os dados mais recentes de contaminação, o que sugere também o inicio de um gradual processo de desmonte das medidas de isolamento social implementadas na principal economia do mundo.

Para contemporizar e reforçar o quadro de extrema incerteza que vivemos, observa-se que há receios severos sobre uma terceira onda de contaminação na Ásia, com Japão, Taiwan e Singapura adotando novamente medidas de maior restrição social. Ou seja, a ordem do dia relativo ao coronavirus segue incerta, mas reforçamos o ponto colocado no primeiro parágrafo: o mercado precificou, desde o final de janeiro, o pior cenário possível para o desenvolvimento da doença. Na medida em que surgirem notícias sobre retomada do cotidiano (mesmo que extremamente limitado) e que esta retomada seja de fato implementada, poderemos ver também uma reprecificação dos preços de ativos em direção a cenários econômicos menos adversos.

Soma-se ainda dois elementos relevantes: (i) na falta de um remédio efetivo para combater os piores sintomas da doença, o tempo permanecerá como principal antidoto, o que naturalmente tem um custo econômico relevante. (ii) Bancos Centrais e governos seguem atuantes para socializar as perdas econômicas que o período de severa desaceleração contratada para o final do primeiro trimestre e começo do segundo trimestre enseja. Neste sentido, vemos mais medidas do FED e outros bancos centrais (notadamente o Banco Central da Inglaterra) para manter o bom funcionamento dos mercados financeiros e, principalmente, dos mercados de crédito.

Devemos mencionar aqui rapidamente a Zona do Euro para reforçar algumas das teses preponderantes que pesam sobre o grupo. Uma reunião dos ministros das finanças marcada para terça-feira falhou em produzir resultado de novos programas de auxílio para os países membros. Há promessa de que estes programas poderão ser atingidos até o feriado, mas resta evidente que os problemas observados ao longo da última década (resultantes diretos da falta de uma união política e fiscal para complementar a união monetária) permanecem como elemento de dúvida quanto a sustentabilidade de longo prazo do bloco.

No mercado de commodities, as últimas notícias dão conta da confirmação de um acordo no cartel OPEP+. Os detalhes ainda não são claros no momento em que escrevemos este comentário, restando dúvidas sobre o tempo pelo qual o corte se estenderá e, principalmente, qual será a base de cálculo para implementação do corte (i.e. será com base nos termos do último corte ou será com base da produção do mês de março).

No Brasil tivemos mais uma semana de severos ruídos políticos. Não pretendemos entrar em relatos profundos sobre o ocorrido na última segunda-feira, mas ressalta-se um comentário feito anteriormente: boa comunicação e coordenação entre todos os poderes e esferas do estado são absolutamente essenciais neste momento para minimizar os custos associados a crise do coronavirus.

O cenário fiscal está sob ameaça esta semana. Diferente de movimentos anteriores, que davam conta de um evidente aumento no nível da relação dívida/PIB, mas que não pareciam comprometer necessariamente a sua trajetória nem o grau de endividamento a partir do ano que vem, a possível aprovação do Plano Mansueto alterado configura-se como clara pauta-bomba no congresso: haverá alteração significativa do endividamento de Estados e Municípios, o que comprometerá de sobremaneira o ajuste fiscal uma vez passado este momento de maior turbulência.

Por outro lado, segue a discussão sobre a atuação do Banco Central frente a crise. Nossa tese segue inalterada: acreditamos que o BC deve priorizar neste momento o bom funcionamento dos mercados e da transmissão de política monetária, o que não é necessariamente igual a uma SELIC mais baixa. O cenário de atividade e inflação deverá permitir ajuste suplementar da taxa básica em 0.5% ao longo do ano (levando-a para 3.25%), mas a questão preponderante permanece com o Banco Central sendo capaz de atuar para facilitar o fluxo de crédito na economia. Assim, a aprovação da PEC do Orçamento de Guerra pelo senado é essencial.

A guisa de conclusão, ressaltamos novamente o fator incerteza: o cenário segue conturbado e não há clareza sobre como e quando as medidas de retomada da abertura da econômica serão adotadas. No entanto, há de se considerar que o fluxo de notícias mudou e isto tem impacto considerável nos preços de ativos. Permanecemos cautelosos, mas reforçamos o dito na semana passada: os fortes movimentos de mercado inegavelmente geraram boas oportunidades em todas as classes de ativos. Na nossa visão, este movimento ainda pode perdurar um pouco mais.

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais.