Estamos no final de novembro, um mês que aparenta ser de resoluções para algumas questões centrais que dominaram o ano. Por um lado, o discurso do presidente americano evoluiu para reconhecer a possibilidade do Colégio Eleitoral eleger Joe Biden como próximo presidente dos EUA. Ao mesmo tempo, as notícias de vacinas contra o COVID-19 mantêm sua tendência positiva (apesar de alguns percalços) e o início de amplos programas de imunização pode ocorrer antes do previsto. Ainda assim, o ritmo das contaminações segue como elemento central de incerteza, tal qual os riscos fiscais e inflacionários associados à economia brasileira.

Em uma semana reduzida nos mercados internacionais por conta do feriado de Thanksgiving, o foco das notícias globais girou em torno do principal assunto do ano: COVID-19. Pelo lado positivo, alguns países da Europa Ocidental apresentam controle da tendência explosiva das últimas semanas e começam a esboçar planos graduais de reabertura. Apesar disso, a atividade econômica evidentemente sofre com a redução da mobilidade. Note-se que o índice IFO da Alemanha, principal economia da Zona do Euro, teve leitura abaixo das expectativas e sugere PIB marginalmente negativo para o quarto trimestre.

A dinâmica entre riscos de contaminação e perspectiva de imunização dominarão o final deste ano e começo do ano que vem. Neste sentido, as notícias de vacina seguem positivas, mesmo com a reviravolta da vacina de Oxford. Fato é que estamos nos aproximando do final do ano com uma série de candidatos para aprovação regulatória. Mesmo que isto acabe atrasando em mais um ou dois meses, no final do primeiro trimestre já devemos ter um movimento mais amplo de imunização, o que coloca perspectiva positiva para a atividade: imunização, estimulo monetário e suporte fiscal são a temática de 2021. O ambiente pode ser de crescimento global sincronizado, algo que foi a marca positiva de 2017 e começo de 2018.

O destaque da economia tupiniquim na semana foi o IPCA-15 de novembro, com leitura acima do esperado por nós e pelo consenso do mercado. Pelo segundo mês consecutivo os bens industriais surpreenderam para cima, o que por sua vez começa a colocar pressão sobre a difusão (i.e., a quantidade de itens que crescem dentro do IPCA). Assim, a possibilidade de uma retração acelerada do choque atual torna-se menos provável e o Banco Central poderá defrontar-se com uma situação de aceleração inflacionária e elevado desemprego no começo do ano que vem.

A discussão fiscal insere um elemento de incerteza nesta equação: caso tenhamos uma resolução benigna, a perspectiva de valorização parcial da moeda nacional (real) poderá atuar como amortecedor da inflação. Por outro lado, os riscos associados ao rompimento do teto de gastos levariam ao descolamento das expectativas e obrigaria atuação preventiva do BC em intensidade maior do que o antecipado. De qualquer forma, a perspectiva de elevação da taxa SELIC no final do primeiro semestre do ano que vem não pode ser descartada.

Em suma, o cenário global segue dando suporte aos ativos locais. A sinalização política foi marginalmente melhor durante a semana, mas precisaremos ver efetivamente a publicação dos relatórios da Reforma Tributária e da PEC Emergencial na semana pós-eleição e, principalmente, entender o posicionamento do executivo em relação a como encaminhar tais reformas para ganhar confiança em relação a capacidade de os ativos brasileiros gerarem alfa ao invés de somente serem betas globais.

Assim, mantemos perspectiva positiva para a bolsa enquanto a curva longa oferece boas perspectivas dado o grau de inclinação que observamos na estrutura a termo. Ressalta-se de qualquer forma que a natureza do problema no Brasil segue binário. Portanto, apesar de entendermos que o real está desvalorizado, ainda assim há um risco grande em estar comprado na moeda nacional.

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais.