Finalmente, após considerável tempo, tivemos uma semana de maior calmaria em Brasília (ressalva importante: ela ainda não terminou). A agenda legislativa avançou sem grandes surpresas e houve maior entendimento do executivo federal com os executivos estaduais. No cenário externo, elevaram-se as tensões entre EUA e China de forma significativa e a reunião anual do parlamento chinês não fixou meta de crescimento para este ano.

Começando pelo cenário externo, a semana trouxe poucas novidades em termos de dados econômicos relevantes. Os dados divulgados recentemente são referentes a março e abril, mostrando, portanto, forte deterioração da demanda agregada global em consequência aos protocolos de isolamento social amplamente adotados. Vemos, no entanto, algumas evidencias anedóticas sobre retomada pós-isolamento: o preço da gasolina nos EUA está subindo e dados de aplicativos de mobilidade mostram que diversos países europeus têm maior fluxo de pessoas nas ruas. Isto não deverá gerar uma recuperação em ‘V’ da economia global, mas haverá uma aceleração da atividade na medida em que o isolamento social for relaxado. No mais, seguimos a espera de tratamentos que possam solucionar definitivamente a origem da crise.

O destaque, no entanto, recai sobre a relação EUA vs. China. A retórica do governo americano está mais dura do que antes. Ademais, o congresso americano também avança com projetos que visam aplicar sanções contra a China tanto por motivos econômicos, como por motivos de segurança nacional. Acreditamos que parte deste movimento tenha motivação nas eleições: historicamente, elevação do desemprego no segundo trimestre do ano eleitoral está associado a redução na chance de o presidente em exercício conseguir se reeleger. Na medida em que neste trimestre observaremos o pior resultado da economia americana na história, compreende-se naturalmente a hesitação do presidente Trump e seu desejo de transferir a culpa para um ente terceiro (justificado ou não). Deve-se destacar, no entanto que o conflito entre ambos os países é absolutamente real e se estenderá ao longo do tempo. A diferença agora é que, dada a situação econômica mais frágil, o enfrentamento pelo lado americano deve ser principalmente retórico. Assim, não vemos risco iminente ao acordo comercial assinado no começo do ano, mas a probabilidade deve ser mantida sob análise constante.

Por outro lado, a reunião anual do parlamento chinês trouxe novidades relevantes: não houve definição de meta de crescimento para este ano. A justificativa, naturalmente, está na elevada incerteza referente a atividade global por conta da pandemia do coronavirus. Por outro lado, destacou-se o suporte fiscal e monetário que será implementado para impulsionar a economia. Porém, o principal destaque, ao menos por enquanto, relaciona-se a Hong Kong. O parlamento introduziu legislação que aumenta o escrutínio chinês sobre a cidade (e também sobre Macau). Face os grandes protestos de rua que vimos ao longo do segundo semestre do ano passado, a introdução desta legislação reacende o risco político para o território. Ao mesmo tempo, o congresso americano já introduziu diversas leis que aumentam o rigor do escrutínio americano sobre Hong Kong, vinculando a manutenção dos direitos civis a manutenção do status especial que a cidade tem. Assim, o aperto do controle chinês sobre a cidade pode levar, em um cenário extremo, a implementação de sanções contra oficiais de alto escalão da hierarquia chinesa.

No Brasil, vimos a continuidade da redução de tensão política entre executivo e legislativo que se iniciou na quinta-feira da semana passada (suspenso rapidamente pelo pedido de demissão do ex-minstro da saúde Nelson Teich). O resultado da maior aproximação do presidente Jair Bolsonaro com os presidentes da Câmara e do Senado, além de sua reunião com governadores na quinta-feira e a nomeação de indicados do Centrão para cargos na estrutura federal foi positivo para preços de ativos: a bolsa subiu, o real valorizou e os juros futuros caíram.

Vale ressaltar, que a maior probabilidade no momento é de que o presidente vete a autorização de aumentos para servidores públicos que consta no plano de auxílio emergencial para Estados e Municípios e, dada a aproximação com o centrão, que este veto não seja derrubado. Observa-se, portanto, a confirmação de nossa tese: a piora na articulação política do governo eleva a chance de políticas heterodoxas. Se é bem verdade que maior articulação não leva a redução iminente do risco, deve-se reconhecer que este risco diminui. Dada a delicadíssima situação fiscal do Brasil ao início da crise e a evolução do déficit do governo por conta da pandemia e dos planos de apoio a economia, este fator não pode de forma alguma ser menosprezado.

Os riscos não diminuíram por completo, no entanto. Não vamos supor que entramos em uma fase de absoluta conciliação política e assim seguimos sujeitos a riscos de headline e exacerbações por parte do núcleo duro de apoio ao presidente e, não menos importante, seus filhos. A evolução destes fatores será crucial para determinar como o Brasil sairá da crise no futuro, retomando o caminho das reformas ou caindo definitivamente em paralisia política. Evidentemente, a solução pode ser intermediária.

Em termos de alocação, a tranquilidade dos preços de ativos ao longo da última semana reforça a tese de que o Banco Central cortará novamente a taxa SELIC em sua próxima reunião, ficando a discussão para a magnitude do corte (50 ou 75 bps). Assim, vemos ainda um cenário positivo para alguns setores na bolsa, ao menos por enquanto. Para a moeda, após a valorização do BRL observada ao longo dos últimos dias, estudamos um bom ponto de entrada novamente em nossa posição comprada em dólar. Ainda assim, reconhecemos que o movimento de valorização da moeda local possa se estender momentaneamente. Em termos de juros, destaca-se somente que a inclinação presente da curva não deverá perdurar ao longo do tempo.

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais.