Na semana passada comentamos que o mercado estava sendo sustentado por quatro elementos atuando paralelamente: (i) política monetária/fiscal expansionista, (ii) aumento da perspectiva de recuperação econômica acelerada atrelada ao (iii) controle da pandemia nos países mais avançados no processo de reabertura e (iv) calmaria política em Brasília.

Nossa ressalva naquele momento era de que havia certeza razoável de duração somente em relação ao primeiro elemento e que, no surgimento de dúvidas sobre qualquer um deles, poderíamos observar realização do mercado. Parece-nos que o diagnóstico estava correto, visto que o mercado realizou em cima da retomada de crescimento dos dados de contaminação nos EUA, principalmente no estado do Texas. Os movimentos dos mercados foram significativos, com reversão de parte dos movimentos observados nas semanas anteriores em todas as classes de ativos.

No cenário internacional, os dados americanos chamaram novamente a atenção do mercado. Em termos de inflação, vimos nova surpresa negativa na leitura subjacente, que exclui os grupos voláteis de alimentação e energia, do índice de preços ao consumidor (apesar de uma surpresa positiva no índice de preços ao produtor). De maneira geral, a perspectiva para a evolução dos preços subjacentes é de desinflação por conta do elevado desemprego e da perda de dinamismo na atividade econômica em consequência da pandemia. Devemos lembrar que inflação tende a ser defasada em relação ao ciclo e, na medida em que estamos vivenciando uma forte desaceleração do PIB, a perspectiva é de inflação muito baixa ao longo dos próximos anos.

Neste sentido, a reunião do comitê de política monetária do FED (FOMC) de junho correspondeu às nossas expectativas. O comitê divulgou, pela primeira vez desde dezembro do ano passado, projeções macroeconômicas. A expectativa é de retração severa da atividade ao longo deste ano, com desemprego permanecendo muito elevado ao longo do horizonte de projeção, bem como inflação abaixo da meta no índice subjacente para todo o período. Assim, a resposta inequívoca de política monetária tem de ser acomodativa. Foi justamente isto que Jerome Powell demonstrou durante a conferência de imprensa: não há nenhuma intenção por parte do FOMC de discutir sequer a possibilidade de retirada de estímulo monetária no médio prazo. Acreditamos que o FOMC adotará mais medidas de sinalização ao longo do terceiro trimestre, provavelmente na reunião de setembro.

Destaca-se ainda no cenário internacional a divulgação dos dados de inflação na China. Tanto os preços ao produtor como ao consumidor vieram abaixo do esperado pelo mercado. Ressalta-se aqui a relevância dos preços ao produtor chinês para a inflação global, sendo que a manutenção das variações negativas como reforçadas esta semana deverão garantir mais um vetor de controle de inflação na econômica global ao longo do futuro próximo.

No Brasil, a semana nos mercados foi reduzida por conta do feriado na quinta-feira. Destaque especial merece o movimento do presidente Jair Bolsonaro para recriar o Ministério da Comunicação e entregar sua direção a um partido do Centrão. Como relatamos há várias semanas, a contínua aproximação de fato entre executivo e legislativo (versus episódios de retórica inflamada) tem garantido uma redução do risco político do Brasil. Neste sentido, vemos a postergação a cada semana de votações de projetos considerados fiscalmente polêmicos e o avanço em torno de pautas relevantes apesar da urgência imposta pela pandemia (como o saneamento, por exemplo). A criação do ministério se encaixa perfeitamente neste cenário.

Nos dados, o destaque no Brasil ficou por conta do IPCA, que surpreendeu as expectativas marginalmente para cima. Ainda assim, a variação mensal foi novamente negativa e a variação em doze meses ficou próxima dos seus mínimos históricos. Tendo em vista a reunião do COPOM na quarta-feira da semana que vem (17/06), esperamos que o BC aproveite a razoável estabilidade dos mercados de capitais junto com o colapso nas expectativas de inflação e crescimento para levar a taxa SELIC para novo patamar recorde: 2.25%.

Apesar do solavanco do mercado observado nesta semana, mantemos o parecer inicial: há apetite por ativos de risco tanto no Brasil como no cenário externo. Os quatro elementos que destacamos na abertura deste comentário são essenciais em todo caso: se confirmada a reaceleração da pandemia nos EUA, o movimento de realização observado nesta semana poderá se intensificar. No entanto, classificamos esta situação como risco e não como cenário base neste momento.

Por Felipe Sichel, estrategista.