A semana foi mais curta por conta do feriado na segunda-feira (aqui no Brasil a Independência e nos EUA o dia do trabalho), mas ainda assim repleta de informações relevantes para a economia e o mercado. Como não poderia deixar de ser, Brasília adicionou sua típica volatilidade e, a julgar por algumas declarações, o ano legislativo já está próximo ao fim.

No cenário externo, a principal notícia ficou por conta da reunião do Banco Central Europeu ontem (quinta-feira, 10/09). Como esperado, a instituição não trouxe novidades em relação aos seus instrumentos de política monetária. No entanto, Lagarde (chair do BCE) indicou estar bastante tranquila com o fortalecimento do Euro ao longo dos últimos meses. Com isso, reforça-se ainda mais nossa perspectiva de enfraquecimento do dólar vis-à-vis moedas de países desenvolvidos.

Por outro lado, as negociações de Brexit voltaram a preocupar, com Boris Johnson avançando com um projeto de lei que pode, definitivamente, levar ao colapso das negociações. Na prática, o projeto restringe as obrigações em relação à Irlanda do Norte e levanta novamente o risco de estabelecimento de uma fronteira física na ilha. A perspectiva de que caminhamos para um cenário “Austrália” parece aumentar em detrimento de um cenário “Canada” para a relação futura entre União Europeia e Reino Unido.

No Brasil tivemos sinalização positiva da atividade. As vendas no varejo cresceram acima do esperado em julho, reforçando a tese de recuperação acelerada no terceiro trimestre. É bem verdade que o volume de serviços decepcionou para o mesmo mês, mas a suposição base por trás das projeções de recuperação supõem de fato um ritmo de recuperação mais intenso na indústria e no comércio, enquanto a recuperação de serviços será mais lenta. Para todos os efeitos, esta dinâmica está intimamente relacionada com as próprias características essenciais da crise.

A inflação também foi o outro grande destaque da semana. Vimos diversas matérias de jornal comentando a aceleração de alguns itens básicos, especificamente o arroz. No entanto, o IPCA, índice que serve de meta para o Banco Central, mantém comportamento razoavelmente tranquilo. Explica-se: a discrepância entre o avanço de alimentos e do IPCA completo está intimamente relacionado a manutenção de vetores baixistas para a inflação de serviços. Esta, por sua vez, está extremamente baixa e a perspectiva é que se mantenha assim durante algum tempo, o que garante que medidas subjacentes observadas pelo Banco Central (que são menos voláteis) permaneçam bem-comportadas.

Assim, os riscos para inflação são altistas, mas não vemos uma aceleração significativa sustentada ao longo do tempo que obrigue forte ativismo por parte da autoridade monetária para ser contida. No entanto, há de se considerar as consequências políticas da aceleração de itens da cesta básica. Uma parte disto pode ser observada ao longo da semana que se encerra, como por exemplo o governo ter cobrado explicações de supermercados sobre a elevação do preço do arroz. São medidas inócuas e não esperamos que haja qualquer tipo de movimentação em direção a dirigismo de preços por parte do executivo, mas fato é que a história ao redor destes eventos não é positiva.

Ademais, o fato do governo puxar para si a responsabilidade de algo que ele não consegue resolver sem arcar com custos significativos de credibilidade da agenda de ajustes econômicos deve gerar algum custo em termos de popularidade, visto que a postura adotada pelo presidente gera, em sua base, expectativa de resolução que provavelmente será frustrada.

Finalmente, as notícias do campo político indicam claramente que o momento em direção a avanço de reformas ao longo do restante do ano está se esvaindo. Neste sentido, diminuem consideravelmente as chances de aprovação da reforma administrativa, do pacto federativo e da reforma tributária. Em nossas interações com membros do Congresso, fica somente a perspectiva dada pelo Presidente da Câmara, Rodrigo Maia, de que há necessidade de avançar com regulamentação dos gatilhos que garantirão a manutenção do teto de gastos.

A próxima semana trará a divulgação do IBC-Br aqui no Brasil, além da reunião de setembro do Banco Central do Brasil e também a reunião do FED. Para o primeiro, esperamos manutenção da taxa SELIC inalterada. Para o segundo, apesar da expectativa de juros inalterados, não descartamos a possibilidade de implementação de forward guidance na sequência do exposto por Powell em Jackson Hole.

A conclusão disto para alocação é pouco diferente do que comentamos na semana passada. Títulos indexados à inflação são interessantes no momento, enquanto que a pouca perspectiva de aceleração muito acentuada de preços deve manter a taxa de juros curta ancorada. Isto, por sua vez, mantém atração para a bolsa ao longo do tempo. O risco permanece político/fiscal, com as sinalizações mais recentes de Brasília ensejando cautela.

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais