O Banco Central dos EUA (FED) voltará a se encontrar em menos duas semanas para deliberar sobre a política monetária apropriada para o país. Desde a última reunião, vimos uma intensificação nas discussões sobre o tapering (i.e., o início da redução no ritmo de compra de ativos por parte da autoridade monetária). Acreditamos, no entanto, que esta discussão começará somente em julho ou setembro.

As minutas da última reunião indicam claramente que alguns membros da autoridade monetária desejam iniciar tal discussão mais cedo. A reação do mercado é evidente: se o FED deseja retirar estímulo, então haverá uma abertura da taxa de dez anos, junto com valorização do dólar index e também uma queda nas bolsas.

No entanto, devemos prestar atenção no que ocorreu no momento em que terminou a reunião a qual a minuta se refere à atualidade. Vimos desde então duas leituras de Payroll. Ambas, incluindo a de hoje (04/06), surpreenderam negativamente em termos de vagas criadas e mostram que há um problema relevante de redução na taxa de participação da economia.

Já os dados de inflação mostraram força considerável. O índice subjacente do CPI teve a maior leitura desde a década de 80. Ainda assim, sua abertura mostra grande concentração no avanço de preços de carros usados, efeito direto da restrição de oferta em carros novos por conta da crise na produção de semicondutores e também por recomposição de estoques. Há de se admitir que, mesmo retirando isso, a inflação foi acentuada.

Finalmente, os indicadores antecedentes de atividade começam a mostrar alguma desaceleração na margem, o que ajuda a reforçar um elemento central de nossa tese para o segundo semestre: há um brutal descasamento entre oferta e demanda de bens e serviços a nível global. Isto é consequência tanto de um movimento de reabertura díspar ao redor do mundo (por sua vez consequência de estratégias difusas na contenção da pandemia por parte das autoridades), como também do fato de que provavelmente os agentes econômicos levam algum tempo até se sentirem completamente seguros a retomar hábitos, que antes considerados corriqueiros.

Somando-se a isso uma grande demanda reprimida (que é descomprimida quando a reabertura é percebida como segura) bem como um ambiente de auxílio desemprego elevado nos EUA, temos um cenário em que o descasamento mencionado antes, perdurará por alguns meses e ajudará a manter a volatilidade dos dados.

Na cabeça do FED há, além da preocupação com esta volatilidade de dados dificultar a leitura do cenário, uma preocupação também em termos de não permitir que a recuperação seja interrompida por conta de uma retirada de estímulo prematura. Vale lembrar ainda que desde o final do ano passado o objetivo do FOMC é atingir a meta de inflação em média. Ou seja, é desejado que os preços acelerem acima de 2% (não muito acima) durante algum período.

Assim, nossa expectativa é que o FOMC ainda não adote a discussão de tapering nesta reunião de junho. Há motivos para crer que isto aconteça somente em julho ou setembro. Mesmo assim, quando isto ocorrer, o primeiro passo será somente um anúncio sobre a discussão. Conclusões de fato ficarão para o final do segundo semestre e, a nosso ver, a implementação do plano somente para o começo do ano que vem.

Para o Brasil isto é um cenário positivo. Manutenção de baixa volatilidade de taxas de juros na maior economia do mundo ajudam a manter ampla liquidez global, o que por sua vez se traduz em um ambiente não hostil para mercados emergentes. Se vamos aproveitar este beta global auspicioso depende, como ao longo dos últimos anos, de nossa capacidade de implementar um alfa positivo.

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais.