O cenário externo nos parece definitivamente menos complexo do que havia algumas semanas: há injeção de liquidez considerável em todas as economias desenvolvidas, com boas respostas no mercado e uma gradual movimentação em direção a saídas cautelosas da quarentena. Ao mesmo tempo, os dados econômicos reforçam a deterioração esperada, mas são desconsiderados pelo mercado na medida em que há alta expectativa por uma solução para a crise.

Já no Brasil o cenário é diferente. Estamos com um grave problema de mensuração dos casos de coronavirus e com dificuldade de achatar definitivamente a curva de contaminação. Ao mesmo tempo, os ruídos políticos constantes geram aumento da volatilidade e incerteza sobre quando será nosso ponto de inflexão da crise. A liquidez está atuando no mercado local também: a forte queda do CDI ao longo dos últimos anos provoca uma pressão compradora de bolsa (e vendedora de dólar) relevante, que tem ajudado a sustentar as ações locais apesar de todos os ruídos. A semana foi de descompressão, mas mantemos que o maior ruído político pesa negativamente no preço de equilíbrio dos ativos financeiros locais.

Vamos detalhar alguns desenvolvimentos relevantes no cenário externo. Na política monetária, o FED manteve a taxa de juros inalterada em sua reunião regular da última quarta-feira (29/04). No entanto, duas ações do banco central (na terça e na quinta-feira) mostram que o BC americano não vê limitação em sua atuação para garantir o bom funcionamento dos mercados de capitais e de crédito.

Se considerarmos o comunicado da última quarta junto às ações implementadas, vemos na realidade que o Banco Central está comprando graus de liberdade e desejando manter a opcionalidade quanto a política monetária aberta. Isto quer dizer, o FED não pretende guiar-se por um ou outro dado econômico que indique um leve ajuste de cenário. Ele atuará para garantir a retomada da economia uma vez passada a crise de saúde pública e revisitará seu arcabouço implementado somente quando houver confiança de que o objetivo de pleno emprego e inflação em 2% estão confortavelmente garantidos. Dada nossa expectativa de desemprego elevado nos EUA até o final do ano que vem, não vemos risco de surpresas no curto prazo.

Na China, os dados de PMI foram mistos. O PMI oficial de manufaturas veio acima de 50, mas abaixo do esperado, enquanto o PMI Caixin (que tem maior penetração em pequenas e médias empresas) voltou para patamar contracionista (abaixo de 50). Ao invés de tirar grandes conclusões destes números, preferimos utilizá-los para reforçar nosso cenário de que a recuperação será gradual enquanto o ritmo de reabertura for disperso nas diferentes economias globais. Fundamentalmente, dado que necessitamos de uma solução para a saúde pública que não passa pela economia nem pelo mercado financeiro, a recuperação econômica global deve ser gradual ao longo dos próximos meses.

Aqui no Brasil vivemos um final de semana de fortes especulações políticas que resultou em expectativas negativas para a abertura dos mercados na segunda. No entanto, logo cedo na segunda-feira, o presidente Jair Bolsonaro deu novos sinais de apoio ao Ministro da Economia Paulo Guedes e à ministra da Agricultura Tereza Cristina. Ao mesmo tempo, reforçou sua busca de apoio no centrão e adotou tom conciliador com os presidentes da Câmara e do Senado. Os movimentos são relevantes e apontam para estabilização dos riscos no curto prazo. No entanto, a distribuição de probabilidade quando analisamos os cenários no Brasil nos faz sempre incluir alguma chance (por menor que seja) de repetição do que ocorreu na sexta-feira 24/04. Infelizmente isto cria uma pressão adicional para preços de ativos brasileiros ao retirar potencial de nossa economia. De qualquer forma, esperamos que os próximos dias tragam avanços da PEC do Orçamento de Guerra e da Ajuda Emergencial aos Estados.

Em termos econômicos, destaque para a divulgação do IPCA-15, que mostrou forte aceleração em alimentos e desaceleração nos outros grupos. O cenário benigno de inflação e acomodação política voltaram a reforçar as expectativas de um corte de 50bps da taxa SELIC na semana que vem.

Finalmente, o grande risco para o Brasil permanece o fraco combate ao COVID19. Infelizmente a semana trouxe notícias preocupantes em termos de aumento no número de contaminados e redução dos índices de isolamento social.

A conclusão é clara: não teremos uma recuperação imediata da economia global, mas as notícias parecem progressivamente melhores e mercados vem se alimentando tanto da expectativa de recuperação econômica, como da possibilidade de relaxamento do lockdown como também das notícias em torno de possíveis remédios para combater o COVID. No Brasil, estamos ainda sujeitos a ruídos políticos e a um cenário incerto da pandemia, o que deveria manter a volatilidade dos mercados elevada.

 

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais

 

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