Chegamos ao final de uma semana que mostrou dicotomia interessante entre os diversos fatores que tem influenciado os mercados: as contaminações de COVID19 aceleraram preocupantemente nos EUA (permanecendo sob controle na Europa), a campanha eleitoral presencial de Trump começou com pé esquerdo, os dados econômicos surpreenderam para cima e o mercado americano voltou a ter desempenho negativo. No Brasil, mais sinais de calmaria política, enquanto a curva de contaminação teima em não ceder.

No cenário externo, a semana foi de aumento das tensões em torno do COVID19, capitaneado por nova rodada de aumento das contaminações em relevantes estados norte-americanos. Especificamente, chamou atenção na quinta-feira o movimento do Texas de colocar em espera a continuação dos planos de reabertura da economia. Relevante perceber aqui que, por mais que não tenhamos episódios como o de março, na qual uma grande parte da economia global fechou simultaneamente, estaremos sujeitos a repetidos surtos localizados que levam a fechamento temporário de certas regiões (na semana passada foi Beijing, esta semana algumas cidades no noroeste da Alemanha). Isto colocará a economia global operando em patamar sub-ótimo até que seja encontrada solução definitiva para a questão de saúde.

Por outro lado, a campanha presencial de reeleição do presidente Donald Trump começou oficialmente no sábado da semana passada com um evento na cidade de Tulsa. Chamou evidente atenção a baixa presença no evento, sendo que um dos destaques da campanha de 2016 foi a capacidade de Donald Trump de mover as multidões em seus comícios. Evidentemente, o sinal amarelo da reeleição de Trump foi aceso ante a dificuldade de organizar os eventos presenciais e as consequências nefastas que a pandemia gerou (e gerará) na economia.

Em termos econômicos, os dados seguem surpreendendo positivamente, levando a uma revisão paulatina da projeção do PIB para o segundo trimestre. O desempenho econômico ainda é de ampla e profunda recessão, mas faz-se necessário notar que a realização econômica do segundo trimestre nos EUA poderá ser menos pior do que o antevisto na há dois meses atrás. Ainda assim, a economia americana finalizará o ano com evidente perda de PIB se comparado ao final do ano passado.

No Brasil, os destaques econômicos ficaram por conta da divulgação da ata da última reunião do COPOM e do Relatório Trimestral de Inflação. A pergunta central advinda agora é se o Banco Central optará por mais cortes da taxa SELIC, reforçando seu comprometimento com a meta de inflação de 2021. Nosso cenário base antevê mais um ajuste gradual da taxa, mas reconhece-se que, dado o patamar já estimulativo dos juros no Brasil, o COPOM poderia optar por uma postura mais cautelosa. Resta evidente que, ante o cenário desafiador e permeado de incerteza, as próximas decisões do comitê não serão inequívocas como foi a anterior.

Em um desenvolvimento positivo, o Conselho Monetário Nacional definiu a meta de inflação para 2023 em 3.25%, continuando o movimento de redução da meta implementado desde 2016. Assim, nos aproximamos mais dos nossos pares e, dada a credibilidade conquistada pelo BC, aumenta a chance de termos inflação baixa e controlada ao longo do tempo.

Destacamos também positivamente a aprovação do Novo Marco Legal do Saneamento no Senado, que agora segue para a sanção presidencial. Ante os evidentes atrasos nesta área básica de desenvolvimento no Brasil, abre-se a possibilidade de maior investimento e melhor atendimento da população.

Ao mesmo tempo, discussões relevantes permearam o Congresso Nacional ao longo da semana. Vemos um aumento da chance de adiamento das eleições municipais (tema que deverá ser discutido calorosamente ao longo das próximas semanas) e também inserções do presidente da Câmara que alimentam alguma especulação sobre a trajetória fiscal do Brasil. Dado que o fiscal é nosso calcanhar de Aquiles no momento, qualquer comentário que arrisque levar o país para uma trajetória permanentemente pior deve ser visto com cautela.

Finalmente, a política segue na tendência já discutida nas últimas semanas. Hoje (sexta-feira a tarde) as indicações são de maior alinhamento entre os três poderes na esfera federal, com sinalizações importantes na direção de maior apaziguamento por parte do executivo. Evidentemente, projeção de trajetória política é uma tarefa difícil, mas há de se concluir que houve um abrandamento no discurso do presidente desde o começo de abril e que isto tem contribuído para o arrefecimento das crises políticas.

Ou seja, dos quatro elementos que citamos recorrentemente para a performance dos mercados (política monetária, recuperação econômica, controle de pandemia e calmaria política local), vemos que um deles voltou a ensejar preocupação mais significativa (controle da pandemia). Acreditamos que estes eventos possam ser passageiros, mas o acumulo de incertezas é significativo e merece atenção. Alocações em bolsa local (beneficiadas pela taxa de juros baixa e o real desvalorizado) devem ser mantidas com cautela. Ainda assim, a tendência global de médio prazo parece inalterada.

Por Felipe Sichel, estrategista Modalmais