O que parecia ser um comentário somente pertinente a eleição americana vale também para o primeiro turno da eleição municipal: vivenciamos um marasmo pós-eleitoral que tende a deixar assuntos relevantes para mercados de lado. Essencialmente, o centro da discussão a nível global gira em torno da pandemia. No Brasil, além deste elemento, temos também uma discussão fiscal e orçamentária relevante para frente.

O cenário externo ainda repercute a não-aceitação de Donald Trump dos resultados da eleição americana, mas isto tem cada vez menos impacto nos mercados. Na realidade, o que poderia de fato ser encarado como um risco neste momento é a demora em iniciar-se o processo de transição, o que dificulta evidentemente o trabalho do presidente-eleito Joe Biden.

Outro risco relevante surgiu na virada de quinta para sexta-feira. Em um movimento sem anuncio prévio, o Tesouro Americano ordenou a devolução de recursos relacionados a programa de crédito do FED. A reação da autoridade monetária foi imediata, indicando a necessidade de manter os recursos e os programas dados a permanência da fragilidade da recuperação econômica.

Os riscos são majorados pelo avanço da pandemia. A situação na Europa e nos EUA (e mais recentemente no Brasil) segue sem mostrar sinais de estabilização. Por mais que as notícias de vacina sejam muito positivas e ajudem a sustentar os mercados, fato é que a força da pandemia enseja cautela em agentes econômicos, o que se traduzirá em menor PIB a frente. Ao longo do tempo, a grande pergunta é se este efeito será momentâneo (por conta de sucesso nas vacinas e nos protocolos de tratamentos) ou se seguiremos sujeitos às intermitências do COVID-19.

No Brasil, vimos a passagem das eleições resultarem uma semana com poucos desenvolvimentos parlamentares. Repetimos incessantemente a relevância da questão fiscal neste fórum. Ante os riscos da segunda onda a questão fiscal toma novo grau de importância: nossa situação de endividamento atual e o perfil da nossa dívida mostram de forma clara que a menos que exista um claro direcionamento do governo de que o desafio fiscal será endereçado, simplesmente não há espaço para manutenção dos programas de apoio aos mais afetados pela crise. Ou seja, entraríamos em uma segunda onda sem espaço para ajudar os mais vulneráveis.

Outros desenvolvimentos na semana também foram negativos. Especificamente a fala do Ministro Paulo Guedes na quinta-feira sobre a possibilidade de vender reservas para reduzir o endividamento geraram nova rodada de questionamentos sobre as possibilidades que o governo tem a disposição atualmente para controlar nossa dívida. Basta dizer que encaramos esta alternativa como negativa dado o momento dos mercados e a sinalização que ela enseja. Diga-se: se esta discussão em condições normais de temperatura e pressão já seria complexa, na situação presente ela se torna (ou deveria tornar-se) proibitiva.

Pelo lado positivo fica o elevado fluxo de estrangeiros para a bolsa brasileira, com diversas especulações sobre os determinantes deste movimento. Evidentemente é algo que dá sustentação a bolsa de valores.

Em suma, o cenário para investimento mostra-se desafiador. A inclinação da curva elevada não dá sinais de que cederá de forma significativa no curto prazo, o que sugere que, por mais que possa existir upside na bolsa, este fica aquém do que poderia ser. Ao mesmo tempo, o real não encontrará vetores de melhora grandes. Finalmente, mantemos perspectiva de que ativos protegidos da inflação são uma boa alternativa neste momento.

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais