Janeiro foi um mês movimentado. Largamos no início do ano com as eleições para o senado dos EUA, vimos a posse de Joe Biden como 46º presidente naquele país, vivenciamos o início da vacinação no Brasil e, não menos importante, o fim do forward guidance do Banco Central. Nessa sequência, seria estranho se a última semana do mês não fosse tão conturbada quanto as outras três.

No cenário externo, a principal novidade foram os eventos envolvendo fortes movimentos na bolsa americana por conta de investidores de varejo. Chama atenção a magnitude dos movimentos e a organização em torno dos papéis que foram destaque. Mais do que isso, os eventos reacendem a discussão sobre a possibilidade de formação de bolhas em consequência da taxa de política monetária super expansionista praticada ao redor do mundo. É um assunto no qual cabe maior discussão, mas ressalta-se aqui somente que o mandato do FED é em relação a estabilidade de preços e desemprego. Ou seja, por enquanto, os eventos da semana não devem afetar a política monetária.

O Banco Central do Brasil divulgou a ata da última reunião do COPOM e adicionou diversas referências hawkish no documento, reforçando a tese de que o ciclo de altas da taxa SELIC deve começar em breve. Ante o teor do documento e a leitura do IPCA-15 divulgado na terça, alteramos nossa projeção e antevemos início do ciclo de altas da SELIC em março. Após uma elevação de 0.25%, acreditamos que o COPOM seguirá elevando a taxa até chegar em 4% ao final do ano. Os riscos são para cima (i.e., SELIC este ano mais elevada).

No campo político, o foco permanece em torno da eleição no legislativo. Vamos reforçar um ponto relevante: esperamos uma bancada razoavelmente alinhada com o executivo tanto na Câmara como no Senado. No entanto, a dinâmica política ainda assim pressiona por reinstauração do auxílio emergencial (ainda que em dimensões menores). A contrapartida das reformas deve ficar restrita a PEC emergencial.

Ou seja, o assunto fiscal e seus riscos associados permanecerão presentes na dinâmica brasileira, fazendo pressão constante sobre os preços de ativos. Parte deste desenvolvimento pode ser observado no dólar.

A combinação de uma postura mais cautelosa do Banco Central (leia-se alta de juros) deveria dar sustentação à moeda. No entanto, ainda assim estaremos somente normalizando parcialmente a nossa taxa, o que não será suficiente para trazer o câmbio para baixo de forma significativa sem que venha acompanhado de uma descompressão dos riscos fiscais. Enquanto a pandemia avança, os riscos caminham justamente para o outro lado.

Assim, acreditamos que já espaço para a valorização do real, mas a alta volatilidade deste mercado enseja cautela. A bolsa por outro lado deveria retomar performance positiva, enquanto a curva de juros deveria perder inclinação.

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais.