Demos oficialmente largada no mês de outubro e hoje (sexta-feira, 02/10) faltam exatamente um mês e um dia para a eleição americana. Assim, não é de se estranhar que o primeiro debate presidencial tenha sido destaque nos noticiários. No Brasil vivenciamos um verdadeiro alvoroço político com a sugestão de financiamento do Renda Cidadã através do FUNDEB e de precatórios. O problema segue inalterado: ou ajustamos a nossa trajetória fiscal, ou o prêmio de risco aumentará.

A um mês de distância da eleição americana o cenário para o candidato a reeleição Donald Trump torna-se mais complexo. As pesquisas indicam que ele está em segundo lugar na maioria dos swing states e para conseguir reverter a situação seria necessário adotar um discurso mais moderado, visando atingir os eleitores de centro. Evidentemente o debate não caminhou nesta direção.

O mercado, entendendo que o debate reduziu a chance de Trump se reeleger, imediatamente precificou maior chance do cenário blue wave (vitória democrata no House, no Senado e na presidência). A eleição será mais complexa do que o normal e há amplo consenso em torno de um processo de apuração demorado, o que por si só eleva o período de volatilidade pós-eleitoral.

Rapidamente sobre a atividade nos EUA, o Payroll de setembro teve leitura abaixo do esperado, mas a taxa de desemprego segue em queda significativa. Na margem, vemos perda de momento positivo na economia. Isto se explica tanto pela redução do estímulo fiscal como pela incerteza da eleição. Assim, a perspectiva para o quarto trimestre é de um crescimento mais lento do que o visto ao longo do terceiro trimestre (o que é razoável dado que grande parte do crescimento do terceiro trimestre foi consequência da reabertura da economia).

No Brasil, as notícias giraram absolutamente em termos do Renda Cidadã. Para além do que já foi discutido, fica evidente que há diversas intenções por parte da liderança política do governo de aumentar de forma substancial os gastos, o que coloca o Teto de Gastos sob ameaça. Evidentemente, o risco de uma situação fiscal mais desafiadora eleva o prêmio de risco da economia brasileira, o que se traduz em perspectiva de SELIC mais elevada e bolsa mais baixa.

Repetimos incessantemente ao longo das últimas semanas a complexidade do cenário fiscal no Brasil e, portanto, não vale se alongar nele neste momento. Vale mencionar no entanto que a indicação futura do Banco Central (forward guidance) está intimamente relacionado a manutenção do regime fiscal atual (Teto de Gastos). O rompimento dele irá, na maior probabilidade, levar a um reajuste quase imediato das projeções da taxa SELIC (como o mercado está antecipando na curva de juros).

Em suma, o cenário se apresenta de forma complexa. Passamos mais um mês discutindo o tema do equilíbrio fiscal intensamente, sem que a agenda de reformas tenha ganho protagonismo ou tenha sido avançada. Soma-se ainda que o calendário político local passará a estar em pausa por conta das eleições municipais. Ou seja, a chance de permanecermos sujeitos a pouco guidance político é grande. Assim, nossa recomendação é por cautela, buscando aproveitar oportunidade de maior volatilidade para fazer alocações.

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais