Citações comuns geralmente têm algo de atemporal que permite utilizá-las em uma grande variedade de situações. A frase título deste comentário é um excelente exemplo dadas as últimas notícias relativas ao auxílio emergencial. Vimos nesta semana um rápido alinhamento das lideranças do legislativo em torno da extensão do auxílio, o que levanta, como da vez anterior e na sua criação a pergunta sobre os recursos disponíveis para financiá-lo dentro do teto de gastos (spoiler: não há).

Já discutimos repetidas vezes as limitações impostas por descontrole fiscal: na medida em que há elevação da expectativa de inflação em consequência do aumento dos gastos, ocorre que a reação necessária do Banco Central é necessariamente a elevação da taxa de juros. Isto por sua vez gera uma perda de PIB à frente. Ou seja, o dano gerado para o crescimento da economia, dado nosso grau de endividamento, é considerável.

Aqui nos restringimos a falar somente de uma das reações adversas, mas já foi comentado anteriormente que o elevado grau de endividamento (fruto das finanças públicas descontroladas) somente contribui para elevação da incerteza econômica, o que por sua vez restringe a decisão de investimento e consumo dos agentes econômicos, encaminhando-nos, novamente para o cenário de “pibinho” uma vez que a passagem dos efeitos base nas estatísticas seja sentida.

Voltemos ao ponto central do auxílio emergencial. Obviamente não se discute o mérito da questão, visto que seguimos em um cenário extremamente delicado por conta da pandemia (o que, diga-se, deve se estender até o meio do ano ante o ritmo de vacinação que projetamos). Discutia-se como melhor cenário possível a possibilidade de uma extensão por três meses de um auxílio de R$200 para 30 milhões de pessoas, o que perfaz um total de cerca de R$ 18bi em três meses. Isto viria acoplado a um comprometimento explícito do legislativo de avançar medidas que ajudem a melhorar a percepção sobre a trajetória da dívida. Não era um cenário ideal, mas definitivamente era factível.

A notícia desta sexta-feira, no entanto é diferente. Fala-se em um auxílio de R$ 250 para 30 milhões de famílias por quatro meses. Ou seja, saltamos de R$ 18bi para R$ 30bi, o que ocorrerá fora do teto de gastos. Pior, apesar do avanço sobre o teto, a perspectiva para avanços nas reformas permanece razoavelmente estanque. Lembrando: a PEC emergencial permanece sem avançar no senado e a Reforma Administrativa foi encaminhada à CCJ, mas está sem relator. Ou seja, em termos de sinalização, a perspectiva não é das melhores.

Assim, relegamo-nos a um cenário de avanço nos gastos sem avanço nas reformas e isto coloca um peso considerável em nossa trajetória macro. Logo, a perspectiva sofre alguma deterioração, o que impacta sobre os ativos de risco também. Quanto ao Banco Central, as intervenções do presidente Roberto Campos Neto esta semana dão impressão de que a autoridade monetária não quer correr com a normalização. Mantemos, de toda forma, nossa projeção de uma elevação de 25bps da SELIC em março.

Logo, nosso cenário torna-se mais desafiador. A perspectiva de que a curva permanecerá inclinada (mais fiscal pesando na ponta longa, menos monetário na curta) manterá o dólar valorizado e deve impedir também forte avanço da bolsa.

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais.