Chegamos ao fim da última semana de julho e os mercados mostram um movimento bastante claro de realização de lucros após um começo positivo. A semana foi movimentada, com destaque para a decisão da taxa de juros do Banco Central americano (FED) e divulgação de dados econômicos relevantes. Aqui no Brasil, destaque para o intenso debate em torno da reforma tributária. No entanto, o que chamou a atenção foram os riscos fiscais nos EUA decorrentes da falta de acordo político entre republicanos e democratas.

Em termos de dados econômicos, vimos a divulgação do PIB do segundo trimestre nos EUA, que caiu no ritmo mais acelerado desde o fim da 2ª Guerra Mundial. O resultado era esperado, visto o impacto sobre a economia das medidas de combate ao coronavirus. O que causa real preocupação neste momento é que uma série de indicadores de alta frequência nos EUA mostram novamente retração após a aceleração de casos em alguns estados. O risco aqui é que a recuperação esperada para o segundo semestre termine por ser atrasada (ou mais lenta) em consequência de perda de dinamismo da atividade.

O FED reforçou este alerta em sua reunião de julho. O Banco Central americano se mostrou evidentemente preocupado com os novos surtos. Relevantemente, o BC reconhece que seu papel neste momento é prevenir que o choque negativo se estenda pela economia, deixando claro que riscos altistas (decorrentes, por exemplo, da descoberta de uma vacina) não é um questionamento que esteja no topo das preocupações da instituição. Neste sentido, reforça-se nossa percepção de que o FED adotará forward guidance em sua reunião de setembro.

O destaque negativo da semana está relacionado intimamente com o risco fiscal nos EUA. Como comentado anteriormente, uma grande parte do desenvolvimento positivo dos mercados e da recuperação nos dados de consumo agregados ao longo dos últimos dois meses nos EUA é consequência direta do estímulo implementado pelo congresso.

A discussão em torno da extensão destes estímulos é bastante intensa, sendo que tem de ser decidida até a próxima sexta-feira (07/08), quando o congresso americano sai de recesso. Até o momento (sexta-feira, 31/07) não temos notícias significativas de avanço das negociações, o que, somado ao risco COVID, força o mercado a precificar maior risco relativo a atividade nos EUA.

No restante da economia global, tivemos surpresas positivas com a inflação agregada da Zona do Euro e, principalmente, em relação aos dados de atividade na China. O PMI Manufacturing, índice cíclico, surpreendeu positiva para o mês de julho e reforça a perspectiva de retomada da economia na sequência do choque do primeiro trimestre.

No Brasil os indicadores de mercado de trabalho (CAGED) mostraram nova surpresa no mês de junho, reforçando a tese da relevância dos programas de auxílio do governo. Por outro lado, os dados de primário decepcionaram negativamente e a relação dívida/PIB passou a impressionante marca de 85%. Como ressaltamos diversas vezes, o risco fiscal para o Brasil é considerável e deverá manter pressão sobre o desempenho da economia local e dos preços de ativos. Nossa analise mostra relação estatisticamente significativa entre a dívida bruta em relação ao PIB e o índice de incerteza econômica do Brasil.

Finalmente, as discussões em torno da reforma tributária permanecem no centro do debate político. Esperamos que elas avancem ao longo deste semestre na Câmara. Por hora, a aversão generalizada da população em relação a um imposto sobre transações parece ser freio fundamental para avanço deste item na pauta. No entanto, a insistência do ministério da Economia sobre o assunto chama atenção.

Na próxima semana teremos reunião do COPOM aqui no Brasil. Nossa expectativa é de corte de 25bps da taxa SELIC para o novo patamar recorde de 2%. Por outro lado, a produção industrial será divulgada na terça-feira e informará sobre o ritmo de retomada da atividade. Na economia global, toda atenção recai sobre o Payroll de sexta-feira.

Em termos de alocação, entendemos que o dólar possa estar entrando em um ciclo de enfraquecimento generalizado contra moedas do G10, ainda que isto não se reflita de forma intensa sobre moedas de países emergentes. Para os juros, faz-se necessário que a curva futura fique menos inclinada, o que ocorre (considerando-se cenário positivo) somente se tivermos retomada de uma agenda de reformas fiscais. O somatório disto com perspectiva de taxa de juros baixa por prolongado período (visto que a inflação permanece ciclicamente baixa) deve ser positiva para a bolsa.

Por Felipe Sichel, estrategista.