Another week, why not another crisis? O informe de semana passada relatava um aparente apaziguamento em Brasília. Pela primeira vez, vimos algum grau de tranquilidade preponderar sobre as atividades governamentais e legislativas. Infelizmente, o teor do e-mail não sobreviveu nem até o final da tarde. Entre as muitas desavenças que prevaleceram ao longo da semana, temos a divulgação do vídeo da reunião ministerial do dia 22/04, operações da Polícia Federal e novo distanciamento entre o executivo e o legislativo. Como pano de fundo, o aprofundamento da crise que permeia a relação do executivo com o judiciário. No setor externo, mais uma rodada de crise entre EUA e China determinaram o rumo das notícias da semana, enquanto os dados econômicos dos EUA mostraram um desempenho um pouco melhor do que o esperado nos investimentos.

A semana foi marcada por arroubos retóricos no setor externo. EUA e China permanecem em trajetória de escalada das divergências, com Hong Kong e Taiwan sendo os principais elementos de divergência atualmente. O presidente Donald Trump fará um pronunciamento na sexta-feira (29/05) sobre possíveis novas sanções contra oficiais chineses por conta de desrespeito aos direitos humanos. Nosso base case é de que a retórica permaneça absolutamente inflamada, mas que em última instancia o acordo comercial assinado em janeiro seja mantido. Este seria o desejo de ambos os líderes.

Evidentemente, o grande risco em relações bilaterais não amistosas pode ser expresso por uma conclusão simples derivada da teoria dos jogos: quando não há coordenação entre os agentes, possivelmente a situação de equilíbrio é pior para todos. Ou seja, há possibilidade de que a estratégia mútua não esteja clara e, em tempos de crise econômica, as chances de policy mistakes que levam a uma trajetória de pioras nas relações bilaterais aumentam de forma vertiginosa.

Outro elemento de política relevante ao longo da semana foi a movimentação do presidente Trump contra empresas do setor de tecnologia, especificamente plataformas de redes sociais. Há motivação política por trás de sua ação (que, em nossa opinião, pode ser revertida na justiça), mas gera mais um fator de incerteza dentro do cenário americano, configurando o tradicional elemento esperado para ciclos eleitorais: volatilidade de mercados.

Em termos econômicos, tivemos algumas divulgações relevantes. Em termos de atividade nos EUA, destaque para as encomendas de bens duráveis, que vieram acima do esperado pelo mercado (ainda que com variação fortemente negativa). Por outro lado, os dados de inflação medidos pelo pce (principal métrica do FED) apontam para fortes pressões desinflacionarias. Assim, temos a confirmação de um choque de demanda, que enseja acomodação da política monetária para gerar reaquecimento da economia. A ressalva a ser feita, é que este reaquecimento ocorrerá em fases: primeiro, teremos uma reversão dos efeitos devastadores do lockdown. A retomada para níveis que prevaleciam antes da pandemia deverá ser possível somente quando houver retomada da confiança dos agentes econômicos, um processo mais lento que o primeiro dado sua dependência de fatores de saúde.

Comentando agora a situação local, os dados da semana mostram a deterioração econômica provocada pela pandemia em suas diversas dimensões: mercado de trabalho, fiscal, produto agregado, etc. Sobre o primeiro item, destacamos que evidentemente o headline de desemprego foi benéfico, mas isto se deve a composição interna do índice: a queda na taxa de participação da economia (explicada pelos protocolos de distanciamento social) segurou evidentemente o salto no índice de desemprego.

Pelo lado político, a semana trouxe novamente a ocorrência de operações policiais que atacaram diversos agentes do nosso xadrez de Brasília. O ponto fundamental é a retomada na escalada da retórica belicosa do presidente em relação aos outros poderes estabelecidos. Ressalta-se que a mera discussão de possibilidade de ruptura institucional (por mais fantasiosa que seja) aumenta a percepção de risco da economia brasileira e reduz o preço de equilíbrio dos ativos na medida em que aumenta (ainda que marginalmente) a possibilidade de riscos de cauda. Neste sentido, a avaliação não consegue destoar do que destacamos há algumas semanas: as flutuações políticas geram efeitos negativos para preços de ativos brasileiros.

Por outro lado, destacamos a sanção do Auxílio aos Estados e Munícipios com os vetos pedidos pela equipe econômica. Ao mesmo tempo, foi aprovada na câmara a prorrogação da MP que permite redução de jornada de trabalho e salários, com apoio do centrão às pautas do governo. Na medida em que avançam as tratativas entre o governo federal e este bloco de partidos, votações como a da MP são relevantes para mensurar a possibilidade de aprovação de propostas heterodoxas, que seriam prejudiciais para nossa situação fiscal.

Assim, finalizamos a semana em tom de apreensão, esperando o pronunciamento do presidente americano e também avaliando como se resolverá a mais recente crise política em Brasília: via aumento ou relaxamento das tensões. A perspectiva para ativos de risco permanece inalterada por enquanto, mas o aprofundamento da crise política levará a uma nova desvalorização do BRL e queda da bolsa.

 

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais.

 

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