Para além dos muitos pontos de interrogação que já levantamos no blog ao longo das últimas semanas em relação ao cenário de médio prazo, aumentaram nos últimos dias os ruídos vindos de Brasília sobre o aumento de bandeira tarifária vermelha 2 e também sobre a possibilidade do racionamento de energia. Como se não fosse suficiente, a leitura do IPCA-15 na semana reforçou o cenário desafiador para o Banco Central.

Há diversos elementos a serem ponderados em relação a crise hídrica. A primeira questão a ser levantada é o limitante natural que nossa matriz energética representa para o crescimento econômico. Nos aproximamos de 5% de crescimento do PIB este ano e já podemos ser forçados a baixar o ritmo por conta de uma limitação estrutural. Por outro lado, a crise também levanta questionamentos sobre a previsibilidade oferecida pelos modelos que o governo utiliza e sobre a diversidade de nossa matriz energética.

Apesar de serem questionamentos relevantes, estes não ajudam a solucionar o problema do curto prazo. Para todos os efeitos, estamos lidando com uma restrição de oferta na energia elétrica, com a possibilidade que a curva não seja contínua. Para tanto, faz-se necessário a discussão ao menos da redução do consumo e medidas mais drásticas (que assemelham 2001) não são descartadas caso a situação não se estabilize.

Em termos econômicos, estamos falando de um cenário de menos crescimento em 2021. Isto por sua vez pode aumentar a pressão por mais gastos do governo, gerando nova rodada de questionamentos sobre a sustentabilidade de nosso quadro fiscal. Consequentemente, haverá deterioração das expectativas em relação à economia brasileira. Ou seja, é um reforço de um ciclo vicioso que já ocorreu ensejado por outros motivos no passado recente e que traz evidentes custos.

Em termos de inflação realizada, o IPCA-15 mostrou um quadro mais preocupante para o Banco Central, com avanço acima das expectativas, núcleos subindo e difusão elevada.

Os preços administrados vieram acima de nossas expectativas e os preços livres um pouco acima (0,70% vs. 0,64% esperado). Os preços industriais vieram acima do teto das expectativas de mercado coletadas pelo Broadcast. A dinâmica mais forte de industriais preocupa e deve continuar pelo menos até o último trimestre do ano, de acordo com estudo publicado por nós no final de julho.

Ante o cenário de inflação mais complexo, restam poucas alternativas ao Banco Central que não subir novamente a taxa SELIC em 1% na próxima reunião do COPOM. Acreditamos que o tom da autoridade monetária terá de permanecer duro ao longo deste ano, haja visto os riscos em torno das expectativas de inflação em 2022. Por outro lado, este movimento tem evidente impacto sobre o PIB do ano que vem, que já mostra revisões nas expectativas.

Em suma, o cenário segue desafiador. Há uma evidente tentativa de retirar tensão do cenário político em antecipação às manifestações do dia 7 de setembro. Somada a uma possível resolução da questão dos precatórios, abre-se espaço para continuação do movimento de estabilização dos mercados visto ao longo do final desta semana. No médio prazo, segue valendo a cautela.

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais.