A semana que se encerra teve um pouco de tudo para dar ênfase a um mercado volátil. Os dados de atividade reforçaram perda de dinamismo. O campo político deixou os mercados em suspenso ao longo da quarta-feira pelo risco de que a Bolsa Família ficasse de fora do teto de gastos e com isso gerasse um descontrole nas expectativas. Adicionalmente, os índices da pandemia continuaram mostrando deterioração e amplas parcelas do país caminham para adoção de medidas restritivas.

Vale comentar rapidamente o cenário externo, antes de discutirmos os desenvolvimentos locais. Essencialmente, persiste a dúvida do mercado em torno dos próximos passos do FED. Os indicadores da economia americana mostram recuperação, enquanto a pandemia parece rescindir mais forte do que o antecipado. Ao mesmo tempo, mantém-se a perspectiva de aprovação do acordo fiscal.

Tudo somado, temos um cenário de elevação do risco inflacionário à frente e as melhores perspectivas se mostram nos títulos públicos mais elevados, o que acabou provocando intervenções verbais de diversos membros de bancos centrais das economias desenvolvidas ao redor do globo.

No cenário local, a principal novidade foi a aprovação da PEC Emergencial no Senado Federal na quarta-feira. Isto não ocorreu sem um sério risco ao teto de gastos ser colocado na discussão ao surgir a possibilidade da Bolsa Família ficar de fora do teto. A preocupação aumenta com as especulações de que o próprio presidente tenha acenado a parlamentares com esta possibilidade.

Diga-se que apesar da aprovação da PEC ter tirado a pressão do mercado, fato é que os impactos fiscais dela são nulos. No momento, temos somente a perspectiva de aumento do gasto em 44 bilhões de reais para o auxílio emergencial. Assim, acentua-se a delicada posição fiscal do Brasil, enquanto o congresso teima em não enfrentar o problema do crescimento dos gastos.

Soma-se como fator complicador que a atividade começa a dar sinais de desaceleração, como pode ser visto na produção industrial do mês de janeiro. Isto tende a se acentuar pela reintrodução de medidas de isolamento social, bem como por evidências anedóticas que mostram problemas na cadeia de suprimentos e de produção em alguns setores.

Dada a preocupante trajetória da pandemia esperada para as próximas semanas, temos um cenário evidentemente desafiador. Revisamos nossa projeção de inflação para cima por conta da desvalorização do câmbio, o que, dado o risco fiscal e político, parece que perdurará.

A reação esperada do Banco Central tem de ser de elevação da taxa de juros, mas não vemos no curto prazo a adoção de uma retórica mais hawkish, o que contribuirá para manter a pressão sobre a moeda.

Para frente recomendamos cautela e reforçamos a percepção de que somente a vacinação em massa será capaz de colocar-nos em uma trajetória para fora da crise de forma sustentável. Neste sentido, o aumento no ritmo de vacinação ao longo desta semana é, sem dúvidas, uma mensagem alentadora.

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais.