Abriremos o mês de novembro com a famigerada (e altamente antecipada) eleição americana. O cenário mais disruptivo, de uma contestação judicial prolongada, parece ter perdido força ao longo da semana. Por outro lado, o COPOM do final de outubro deixou a impressão de estar mais tranquilo com os riscos fiscais e inflacionários do que o mercado, o que, somado ao avanço do COVID-19 na Europa, pesou sobre os mercados.

Já comentamos amplamente nas últimas semanas sobre as nossas expectativas sobre a eleição americana. Resta-nos comentar no momento que nossa convicção no cenário para Casa Branca (i.e. vitória de Biden) não se alterou. Na realidade, o risco parece marginalmente maior em torno de uma vitória mais significativa dos democratas. Isto provavelmente ajudaria a reduzir a contestação judicial do pleito, o que por sua vez seria positivo para ativos de risco.

Vale ressaltar justamente este ponto, independente do vitorioso na próxima terça-feira, o que pode de fato provocar um movimento significativo de realização dos mercados (tudo o mais constante) é uma prolongada contestação judicial das eleições, eu atrase de sobremaneira o anuncio do vitorioso. Neste sentido, o mercado parece bem preparado para maior volatilidade em novembro, o que sugere também desempenho positivo caso o cenário de contestação não se confirme.

Outro fator fundamental na economia global é o avanço da segunda onda do COVID-19 na Europa Ocidental e nos EUA. Governos da Europa começaram a adotar medidas de restrição de contato social mais intensas ao longo das últimas duas semanas. Por mais que não esperemos desenvolvimentos semelhantes como no final do primeiro trimestre, o mero fato das contaminações aumentarem enseja aumento nas caudas do cenário macroeconômico, o que por sua vez piora o desempenho dos ativos de risco.

Aqui no Brasil, seguimos em compasso de espera política por conta das eleições municipais. Assim, o foco da semana ficou por conta da decisão do COPOM, que manteve a taxa SELIC inalterada conforme o esperado. Chamou a atenção no entanto o tom tranquilo do comunicado em relação ao choque inflacionário recente e também o fato do balanço de riscos apontar uma possível deterioração fiscal, mas que não haveria atuação imediata do BC enquanto os riscos não se materializarem.

Assim, o cenário do mercado e do Banco Central divergem, o que se verifica de forma bastante clara nas curvas de juros futuros. Já alertamos anteriormente para o elevado grau de inclinação se comparamos vértices curtos da curva com vértices mais longos. A convergência deste cenário obrigará uma redução desse spread, mas isto evidentemente pode tardar a acontecer.

Enquanto isso, o cenário de risk-off junto a manutenção da perspectiva de SELIC baixa reforça a pressão por desvalorização do real, que voltou a necessitar de intervenções do Banco Central para evitar movimentos de desvalorização mais intensos.

Caminhamos, portanto, para uma semana relevante. No cenário externo, a eleição americana, a reunião do FED de novembro e o Payroll darão a tônica, junto a evolução do COVID-19, dos mercados internacionais. Aqui no Brasil, as notícias ficam por conta da política e da divulgação do IPCA de outubro no final da semana.

Em termos de alocação, acreditamos que a passagem da eleição americana poderá oferecer um movimento de alívio nos mercados. No entanto, a permanência dos riscos fiscais no Brasil enseja cautela na escolha dos melhores ativos para tomar proveito deste movimento.

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais.