Parece mania de repetição repetir constantemente a mesma preocupação em relação a nossa situação fiscal e como ela deriva de incerteza política generalizada ininterrupta advinda de Brasília. Infelizmente, o fluxo de notícias não permite que nos desacoplemos de forma definitiva deste tema. Para além disso, as reuniões do Banco Central do Brasil e do FED na quarta-feira foram extremamente relevantes.

Comecemos pelos Bancos Centrais. O FED conclui sua reunião de setembro na quarta-feira e adicionou no comunicado a reformulação do arcabouço de política monetária que havia sido anunciado por Jerome Powell em Jackson Hole no final de agosto. Ademais, as indicações de política monetária futura (forward guidance) foram reforçadas tendo em vista este novo arcabouço. Assim, o BC americano objetiva atingir uma taxa de inflação moderadamente acima de 2% por algum tempo para compensar o período no qual a inflação ficou abaixo de 2%, chegando, em média, à meta.

No entanto, as projeções do FED mostram a inflação chegando em 2% somente em 2023, apesar da melhor significativa feita em relação as projeções de junho. Consequentemente, a conclusão lógica é crer que as taxas de juros permanecem no patamar atual (0-0.25%) pelo menos até 2024. Vale ressaltar nosso comentário divulgado imediatamente após a reunião: “Em termos de implicações da decisão […], […] A adoção do average inflation targeting essencialmente retira amarras do FED e permite um overshooting commitment de forma semelhante ao que foi testado pelo Japão em 2016. De todo modo, a sinalização é de que mantidos os parâmetros atuais (sem riscos de explosão inflacionária), a política monetária dos EUA permanecerá amplamente estimulativa para além do horizonte de projeção”.

No Brasil, o Banco Central manteve a SELIC inalterada conforme expectativa nossa e do mercado. Com este movimento, o BCB interrompe uma sequência de nove cortes consecutivos, sendo 250bps de redução da SELIC desde o começo do ano.

As expectativas de inflação no cenário híbrido (com taxas de câmbio constantes e juros seguindo o FOCUS) indicam espaço, ao menos teórico, para maior acomodação. No entanto, as discussões macro prudenciais impõem ritmo de cautela para ações futuras. Assim, a porta para futuros ajustes não está completamente fechada, mas há evidentes limitantes para novas atuações.

Resulta interessante que a discussão em torno da inflação reforça nossa percepção já exposta anteriormente de que o Banco Central permanece tranquilo em relação a aceleração de alimentos, julgando-as passageiras e acreditando que não impactarão nas medidas de núcleo no médio prazo.

Obviamente, o comitê reforça a questão fiscal, alertando para o risco de trajetória insustentável devido a extensão de programas de suporte à renda implementados durante a pandemia e da possível quebra do regime fiscal vigente (leia-se Teto de Gastos).

Neste sentido, as indicações da semana mostraram um tom mais positivo do que o visto posteriormente. Na terça-feira, o presidente Jair Bolsonaro indicou o fim das discussões em torno do Renda Brasil, com isso retirando um programa de custo estimado de R$30bi de discussão. No entanto, imediatamente em seguida surgiram os rumores de que o programa seguiria em discussão dentro do governo, mas que esta não seria divulgada para o público ou, alternativamente, que o próprio congresso poderia apresentar propostas de programas de renda mínima.
Como sempre, o questionamento central gira em torno de como financiar estes programas. Fato é que corremos o risco de enveredar, novamente, por buscas de soluções simplistas aos nossos graves problemas estruturais, não atentando para as limitações impostas pela realidade macroeconômica e regulatória de nosso país. Com isso, a perspectiva de redução da percepção de risco no mercado tende a não ceder, o que manterá preços de ativos sobre pressão.

Em termos de alocação, vemos forças opostas atuando sobre os mercados. Por um lado, a inflação baixa e a perspectiva de taxas de juros ancoradas no médio prazo tanto no Brasil como nos EUA contribuem positivamente para performance de ativos de risco. Por outro lado, os inúmeros riscos (principalmente de cunho fiscal) que se acumulam no horizonte mantém os vértices mais longos da curva elevados, sem perspectiva de que isto convirja no curto prazo. Mantemos recomendação para ativos vinculados a inflação e para a bolsa, mas com reforço novamente para instrumentos que ajudem a proteger o portfólio em caso de aumento do risco fiscal. O ponto “positivo” aqui é que grande parte dos riscos aparenta já estar precificado.

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais.