Na sequência de diversos eventos políticos (reforma ministerial, imposição de uma CPI sobre a condução da pandemia, etc.) o maior ponto de interrogação para mercados locais permanece no orçamento. Enquanto escrevemos este texto (sexta-feira, hora do almoço), paira alguma especulação de que o assunto poderia ser resolvido ainda na tarde de hoje. No entanto, como vimos diversas outras vezes ao longo da semana, nada impede que a resolução acabe atrasada.

Enquanto isso, nada melhor do que a expressão the plot thickens para transmitir as dúvidas que pairam sobre como chegamos no estágio de ter de alterar a peça orçamentária imediatamente após sua aprovação.

Já nos debruçamos anteriormente sobre as implicações de um orçamento que, nas palavras do Ministro da Economia e sua equipe é “inexequível”. Também já comentamos os riscos de sinalização inerentes ao avanço de uma peça orçamentária que tem notados traços de “maquiagem” dos indicadores relevantes. Ou seja, uma reversão de curso é absolutamente essencial.

No entanto, o risco reside na forma como o impasse será solucionado. Ficou evidente ao longo desta semana que o presidente da Câmara dos Deputados ficará descontente com vetos totais ou parciais da peça, o que eleva a chance de retaliação em votações que sejam de interesse do governo. Por outro lado, a perspectiva de que o TCU dê recomendação contrária à sanção aumenta a probabilidade de que o presidente se oponha a não implementar vetos. Ou seja, o impasse está formado.

Esperamos que a resolução seja rápida, visto que incerteza nunca é positiva para mercados e economia. No entanto, as diversas indicações ao longo da semana de que temos algum acordo entre as partes não se confirmaram. Na realidade, quando existir acordo, a expectativa é que a sanção do projeto seja quase imediata (ou seja, não há sentido anunciar um acordo e indicar que a sanção ocorrerá somente no dia 22/04).

Em um cenário político complexo, com indicadores de pandemia ainda mostrando patamares elevados (o que coloca pressão sobre Brasília), mantemos nossa expectativa de que as Reformas Administrativa e Tributária não avancem de forma significativa este ano.

Vale destacar os leilões de infraestrutura esta semana, que tiveram resultado positivo. Apesar da notícia ser ótima para a economia brasileira, acreditamos que o ritmo de leilões e concessões seguirá lento, visto que não há capacidade para rápida análise dos projetos no TCU e que vários projetos de desestatização dependem de acordos políticos complexos.

Por outro lado, a divulgação dos dados de IPCA de março hoje (sexta-feira) pela manhã foi praticamente em linha com nossa expectativa. O índice avançou 0,93% no mês. Por dentro, notamos a desaceleração da alimentação, que foi a grande vilã no final do ano passado. Por outro lado, bens industriais permanecem como um grande risco em relação aos próximos meses.

À frente, mantemos a projeção de mais duas elevações da taxa SELIC em 0,75% e finalização do ano com SELIC a 5%. Os juros sobem mais no ano que vem, indo a 6,5%. Os riscos são evidentes no sentido de antecipação deste ciclo.

Em suma, o cenário permanece desafiador. Ainda acreditamos que a bolsa esteja em patamares atrativos, mas efetivo avanço do mercado depende da redução dos riscos políticos e fiscais. A depender da forma como for a saída do imbróglio do orçamento, isto pode ser um indicador relevante. Em todo caso, seguimos recomendando, como sempre, muita atenção à Brasília.

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais