O título do texto parece um contrassenso se considerarmos que ainda estamos no dia 16/10, mas fato é que o cenário econômico parece bem estabelecido e os fatores de incerteza parecem quase impossíveis de serem modelados. Por um lado, a economia segue em reação positiva por conta do estimulo fiscal e monetário implementado ao redor do mundo. Os dados da semana reforçam esta perspectiva. Por outro lado, crescem novamente os riscos em torno do COVID-19 na Europa e a eleição americana chega às suas últimas duas semanas.

Comecemos pelo ponderável: a economia americana vai de vento em popa. Os dados do varejo reforçaram esta tese hoje (16/11), mostrando forte crescimento entre os seus componentes. O componente subjacente (que retira mercado de automóveis e materiais de construção) avançou no comparativo anual no ritmo mais forte já registrado. Ou seja, a máxima de não duvidar da propensão ao consumo dos EUA segue válida. Por outro lado, a inflação medida pelo índice de preços ao consumidor segue absolutamente bem-comportada e com algumas indicações de que pode seguir fraca no médio prazo. Assim, a estratégia do FED parece segura: as taxas de juros permanecerão baixas nos EUA por longo período de tempo.

Por outro lado, a incerteza relacionada às eleições chega ao seu capitulo final. Veremos mais duas semanas de pesquisas intensas, com a discussão acirrada sobre a validez delas ante os resultados obtidos em 2016. Vale destacar um comentário: as pesquisas estão sendo realizadas em maior intensidade do que há quatro anos atrás e, ao mesmo tempo, o número de indecisos nos swing states se comparado a 2016 é menor agora. Os argumentos apontam em direção a maior confiabilidade, ainda que exista sempre a possibilidade de as margens de erro produzirem resultado inesperado.

O outro grande imponderável é relacionado ao COVID-19. As últimas semanas mostraram um avanço vertiginoso das contaminações na União Europeia. Apesar do número de óbitos não acompanhar o número de casos, há evidente apreensão sobre a dinâmica desta onda ao longo das próximas semanas. Assim, vemos com cautela a retomada da imposição de medidas de isolamento social em diversos países, ainda que não esperemos uma retomada da situação como observada no final do primeiro trimestre.

No Brasil, a divulgação da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) e do IBC-Br finalizaram o ciclo de publicações de atividade em relação ao mês de agosto. De forma geral, vemos desempenho positivo da economia local, reagindo fortemente à reabertura e ao estímulo fiscal e monetário implementado. Vale destacar, no entanto, a recuperação díspar entre setores: a alteração do comportamento dos consumidores por conta da pandemia e dos riscos associados levou a uma acelerada recuperação do comércio e da indústria, enquanto os serviços permaneceram em ritmo mais anêmico. A incerteza derivada da trajetória do vírus deve manter esta diferenciação nas trajetórias dos diversos setores ao longo do tempo.

Finalmente, o fiscal segue como foco de preocupação e o Banco Central dá crescentes sinais de que poderia optar pela retirada do forward guidance implementado há duas reuniões do seu comunicado. Isto seria interpretado, evidentemente, como a abertura para retomada do ciclo de altas da taxa SELIC, algo que há três meses atrás era inimaginável em tão curto prazo.

Em termos de alocação seguimos recomendando cautela. As taxas longas de juros oferecem bons prêmios dado o movimento de abertura de taxas. Ao mesmo tempo, proteção contra a inflação é desejoso neste momento. Já a passagem da eleição americana em duas semanas pode trazer um pequeno alívio técnico nos mercados.

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais.