Chegamos ao final a penúltima semana de outubro. Hoje, sexta-feira 23/10, faltam 11 dias para a eleição americana e cinco dias para a reunião do COPOM. As movimentações de notícias são intensas, perfazendo os temas que dominaram as manchetes ao longo de boa parte do ano: eleições, fiscal, atividade, inflação e juros. Vale a pena tomar um tempo para pensar nos eventos das próximas duas semanas e seus impactos sobre nosso cenário até o final de 2020.

Comecemos pela discussão fiscal. O ponto fundamental de questionamentos ao longo dos últimos meses tem sido constante: o Teto de Gastos está garantido ou não no ano que vem? O governo tem sido ambíguo (sendo que esta semana pendeu para o lado fiscalmente responsável), mas em termos meramente políticos, é difícil imaginar que nossos mandatários optem por acabar do dia para a noite com o Auxílio Emergencial, que chega a uma parcela tão grande da população, sem oferecer um substituto (na forma de Bolsa Família ampliado).

Neste sentido, o pouco tempo de calendário disponível até o final do ano, principalmente tendo-se em conta que nada deve avançar em Brasília até as eleições municipais, eleva de sobremaneira o risco do estado de calamidade e do Auxílio Emergencial serem estendidos para o começo do ano que vem. A alternativa fiscalmente responsável é que se encontre possibilidade de financiamento do Renda Brasil (ou Cidadã) dentro do Teto, o que é possível somente via reformas ou redução do orçamento em outras áreas.

Ou seja, politicamente de difícil avanço. Assim, a primeira alternativa ganha em apoio no campo político. O problema disto foi explicitado ao longo de nossos últimos comentários semanais: o rompimento do Teto de Gastos gerará grande dúvida sobre a sustentabilidade da dívida pública brasileira, o que por sua vez ensejará aperto das condições financeiras e obrigará a elevação da taxa de juros SELIC muito antes do que o projetado. O resultado líquido deste movimento é evidente: menor PIB à frente e um equilíbrio macroeconômico severamente danificado.

Ou seja, o que se desenha para o pós-eleição municipal é a continuação do embate em torno do Teto de Gastos. A opção nacional será pela responsabilidade fiscal e equilíbrio macroeconômico, que permitirá manutenção de taxas de juros historicamente muito baixas e impulsionará crescimento ao longo do tempo ou optaremos novamente pela irresponsabilidade fiscal, desorganizando o cenário e resultando em menos PIB à frente? O cerne da questão está no descompasso entre custos e benefícios na economia e na política: enquanto no primeiro os custos se evidenciam no médio prazo, no segundo os benefícios são colhidos no curto prazo. Ou seja, o incentivo torna-se deveras perverso.

Em termos do que já passou, vale mencionar que nosso tracking de popularidade presidencial (Modalmais – APExata) captura desde a indicação de Kassio Nunes Marques para o STF um aumento da rejeição ao presidente nas redes. O risco aqui relaciona-se essencialmente com o clima de campanha eleitoral já instaurado, numa antecipação do pleito de 2022.

Finalmente, preparamo-nos para o COPOM da próxima semana com poucas expectativas. Os riscos pelo lado do Banco Central são a aceleração da inflação (evidente no IPCA-15 de outubro divulgado hoje) e a questão fiscal. Este, como discutido acima, ainda muito vivo apesar de um pouco mais distante das manchetes.

No cenário externo temos poucas novidades. Os assuntos em voga seguem relacionadas à eleição americana (mantemos o call de vitória de Biden), ao pacote fiscal nos EUA e, pelo lado negativo, o novo surto de COVID-19 na Europa. Este ultimo item merece especial atenção dos investidores, pois deverá pesar de forma significativa nas projeções de atividade do quarto trimestre e, portanto, ensejar nova rodada de atuação do Banco Central Europeu.

Em suma, em uma semana de muitos ruídos e poucos dados, não tivemos desenvolvimentos significativos em direção a resolução das principais questões que devem movimentar os mercados daqui até o final do ano. Assim, mantemos alocação cautelosa em bolsa, com exposição a ativos que se beneficiem do aumento da inflação.

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais.