Talvez o título seja exagerado para descrever o que ocorreu no Brasil ao longo desta semana, mas certamente foi o que passou pela mente de alguns (se não quase todos) analistas do mercado e de política em algum momento dos últimos dias. Diga-se, no entanto, que a sensação indo em direção ao final de semana (escrevo este comentário na sexta-feira pela manhã) é de que o pior pode de fato ser evitado.

Comentemos rapidamente o cenário externo antes de entrar nos pormenores locais. Em uma semana bastante vazia de dados, o destaque recaiu sobre a divulgação das minutas da última reunião do FOMC divulgadas na quarta-feira. A reação do mercado foi hawkish (abertura de juros, apreciação do dólar e queda na bolsa), mas acreditamos que isto tenha mais a ver com ajuste fino de posição. A leitura das minutas indica que o FED ainda vê a evolução da pandemia como fenômeno de maior impacto para as suas projeções econômicas futuras.

Partilhamos desta ideia: a perspectiva de repetidos pequenos surtos ao redor do mundo (sem que nenhum obtenha a distribuição global do surto de fevereiro/março) reforça a perspectiva de uma recuperação da atividade que não ocorrerá em linha reta, mas será permeada por episódios de maior incerteza que pesarão sobre as decisões de consumo e investimento ao longo do tempo. Isto deve perdurar até que seja encontrada uma solução definitiva para a crise de saúde. Ressalte-se que as notícias neste aspecto são positivas, com a Pfizer comunicando na madrugada de quinta-feira que pretende buscar aprovação regulatória para sua vacina em outubro.

Ante este cenário, resta evidente que a opção será por manutenção continuada da política monetária super-expansionista. O diagnóstico pode ser replicado, sem muita perda por conta da generalidade, para todas as economias desenvolvidas. Ou seja, liquidez permanece como o nome do jogo quando olhamos para os mercados globais.

No Brasil o cenário segue dominado pelo que já comentamos recorrentemente nas últimas semanas. O cenário fiscal é desafiador e enfrentar o problema dos gastos públicos torna-se cada dia mais necessário.

A novidade desta semana foi obviamente a votação em torno do veto ao aumento de servidores públicos até o final de 2021. Como a evolução dos fatos é amplamente conhecida, resulta mais interessante comentar as implicações que podem ser tiradas.

Primeiramente, nota-se que há no congresso duas forças opostas: por um lado, evidente pressão por contínuo aumento dos gastos públicos (algo que se replica em menor grau também em alguns setores do executivo). No entanto, o mesmo Congresso também mostrou (na Câmara, é bem verdade) que está sensível a indicação de que os impulsos gastadores estão sendo extrapolados. Ao mesmo tempo, a própria articulação entre governo e líderes para conseguir adiar a reunião de quarta para quinta-feira e manter o veto reforça a tese de que o executivo dialoga melhor neste momento com a Câmara e tem capacidade (ainda que não inequívoca) de conseguir impor sua agenda.

Ainda assim, o sinal é de que a batalha em torno do orçamento de 2021 será complexa. Tratando-se de ano pré-eleitoral e na sequência da crise gerada pela pandemia, haverá naturalmente a intenção de oferecer maior suporte fiscal para a economia. Porém, reforçamos o ponto levantado há duas semanas: a elevação da dívida bruta do governo em relação ao PIB no patamar em que se encontra atualmente no Brasil (indo em direção a 95%) tem consequências nefastas para a economia.

Para abordar somente um dentre tantos outros elementos, devemos mencionar o seu impacto, por exemplo, sobre a incerteza. A elevação da dívida/PIB impacta de forma estatisticamente significante a incerteza (para cima), o que por sua vez irá se traduzir em menos crescimento a frente caso Brasília não chegue a uma agenda crível e sustentada para atacar o excessivo endividamento e problema dos gastos no Brasil.

Por outro lado, temos de mencionar também a relação da política monetária com a fiscal: o nível atual da taxa SELIC (2% a.a.) é sustentável somente se conseguirmos equacionar o endividamento. Doutra forma, veremos a SELIC voltando a subir prematuramente, o que será evidentemente negativo para o crescimento econômico do Brasil.

Assim, mantemos a postura mais cautelosa. Se por um lado os juros baixos são evidentemente estímulo para alocação em bolsa, por outro lado o risco inerente da dinâmica fiscal (e política) gera receio para todas as classes de ativos no Brasil. A sinalização da semana parece ser que de fato não teremos como escapar de momentos mais adversos de mercado ao longo da definição do orçamento de 2021.

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais.