O discurso de Jerome Powell durante a conferência de Jackson Hole trouxe novidades relevantes para a política monetária americana e formalizou algumas das principais expectativas para o FED ao longo dos próximos anos.

Primeiramente, o FED adotou o novo Statement on Longer-Run Goals and Monetary Policy Strategy e introduziu no seu arcabouço de política monetária o objetivo de atingir a inflação em média de 2% ao longo do tempo (“our new statement indicates that we will seek to achieve inflation that averages 2 percent over time. Therefore, following periods when inflation has been running below 2 percent, appropriate monetary policy will likely aim to achieve inflation moderately above 2 percent for some time”).

O FED não se compromete com uma fórmula mecânica para atingir este objetivo, com isso efetivamente descartando a possibilidade de agregar um elemento extra a Taylor Rule que contemplasse o acumulo das decepções em relação como foi especulado ao longo do review de política monetária (“In seeking to achieve inflation that averages 2 percent over time, we are not tying ourselves to a particular mathematical formula that defines the average. Thus, our approach could be viewed as a flexible form of average inflation targeting”).

Em termos de mercado de trabalho temos mudanças relevantes também. Estas vão no sentido de reforçar o exposto por Powell ao longo do último trimestre: um longo período de taxa de desemprego baixo ao longo do ciclo que se encerrou com a crise do COVID não foi capaz de provocar uma aceleração sustentada da inflação ao longo do tempo. Adicionam também uma percepção mais ampla sobre a situação do mercado de trabalho ao invés de somente as estimativas de u* apresentadas no SEP (“our revised statement emphasizes that maximum employment is a broad-based and inclusive goal”).

Ademais, Powell reforçou às ponderações em torno das estimativas da taxa natural de desemprego (como fez em Jackson Hole de 2018 na sua palestra “Monetary Policy in a Changing Economy”) e como isto pode afetar a condução de política monetária (“the maximum level of employment is not directly measurable and changes over time for reasons unrelated to monetary policy. The significant shifts in estimates of the natural rate of unemployment over the past decade reinforce this point”).

Este argumento serve como pano de fundo para evitar a definição de um target efetivo para a taxa de desemprego, ao mesmo tempo em que reforça a posição do comitê em permitir não somente overshoot (moderado) da inflação, como também overshoot da taxa de desemprego em relação as estimativas de u* desde que isto não seja acompanhado por uma aceleração da inflação.

Ao mesmo tempo, enquanto o desemprego permanece acima da taxa u*, Powell esclarece que o objetivo do comitê é minimizar esta diferença com as ferramentas a disposição do FED para estimular crescimento econômico e criação de vagas de trabalho.

Na prática, o FED formalizou uma postura de maior flexibilidade em termos de política monetária, adicionando margens mais amplas de interpretação tanto em torno de seus dois mandatos (inflação e emprego). Os riscos de médio prazo são que a atual postura leve a complacência em relação a aceleração inflacionária caso o “new normal” reverta em direção a um mundo com inflação mais pronunciada. Por enquanto, no entanto, esta preocupação parece ter ficado de lado.

Em termos de próximos passos, a adoção do Statement on Longer-Run Goals and Monetary Policy Strategy já durante Jackson Hole reforça a nossa hipótese, mantida desde meados do segundo trimestre, de que o FOMC adotará revisões no seu forward guidance já na reunião de setembro do FOMC.

 

Felipe Lacs Sichel

Strategist na Banco Modal,