Parece que a tônica dos comentários semanais não mudou muito ao longo das últimas semanas. Comentamos recorrentemente sobre a relação entre política fiscal e ciclo da pandemia, e como a deliciada situação das contas públicas não ajuda na suavização dos ciclos econômicos e de mercado. Esta semana não foi diferente. No embalo do imbróglio do orçamento (comentado na semana passada), o mercado passou por mais dias de volatilidade (principalmente juros futuros e câmbio).

Em termos de dinâmica econômica, a retomada da força da pandemia implica a imposição de medidas de restrição ao movimento, o que impacta diretamente na atividade e renda das famílias e empresas. Logo, surge automaticamente também a necessidade de reintrodução de programas governamentais que ajudem a sustentar a economia.

Não entraremos em detalhes maiores, mas, considerando-se que nosso orçamento já está esticado para este ano (na sequência do gigantesco déficit do ano passado), qualquer programa adicional de sustentação da economia tem consequências enormes sobre a nossa sustentabilidade fiscal. Chegamos efetivamente a 90% de dívida/PIB e não há projeção de melhora deste indicador no curto prazo.

Pelo contrário, vemos riscos crescentes pelo lado fiscal. Fato é que o processo de definição do orçamento de 2021 demonstrou, mais uma vez, que a sustentação do teto de gastos está ameaçada no Brasil. Devemos ver uma resolução em breve da questão que passa pela manutenção da emenda do teto.

No entanto, o fato de ter sido aprovado um orçamento que, nas palavras do Ministério da Economia, é “inexequível” e traz diversas inovações que efetivamente o tornam uma peça de ficção, aumentam os riscos associados a economia brasileira.

A pergunta central em termos políticos é: quem do lado do executivo federal deu endosso ao processo de formulação e votação do orçamento? Esta pessoa estava efetivamente alinhada com o Ministro da Economia? Qual lado (contabilidade criativa ou ortodoxia) prevalecerá no final das contas? São perguntas relevantes com implicações significativas para a projeção da atividade econômica no Brasil.

Se olharmos pela ótica de uma tradicional equação de sustentabilidade da dívida, vemos que, na impossibilidade de reduzir o gasto do estado, a única alternativa será a elevação da inflação ou então o aumento de impostos. Ou seja, a menos que atuemos para reduzir estruturalmente os gastos públicos, enveredaremos por caminhos que evidentemente reduzirão nossa capacidade produtiva.

A responsabilidade orçamentária não pode ser abandonada no momento de crise e, a dilatação desta incerteza (reinante desde março de 2020), somente retira a possibilidade de recuperação da economia no médio prazo.
Em termos positivos, mencionamos rapidamente o avanço da vacinação, que ultrapassou a marca de 500k na média móvel de sete dias. Nossa projeção mostra que, com a confirmação dos cronogramas de entrega da Fiocruz e Butantã, a população acima de 60 anos estará vacinada com a primeira dose até o final de abril e, com a segunda dose, até o final de maio. Ou seja, teremos o primeiro dividendo positivo das vacinações em algum momento da metade do mês de maio.

Enquanto isso, seguimos com cautela. Encerramos como na semana passada: “Acreditamos que a taxa SELIC, mesmo em alta, permanecerá em território estimulativo, o que sugere mais rotação entre ativos na bolsa do que de fato realização. Por outro lado, o aumento do carrego deve dar sustentação ao real contra o dólar, enquanto taxas curtas mais elevadas ajudam a reduzir a inclinação da curva.”

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais.