Como o tempo que vivemos atualmente é tudo menos costumas, nada mais razoável do que mais uma semana movimentada nos mercados internacionais e locais. Lá fora, seguem as confirmações de um semestre absolutamente devastador em termos econômicos. Isto também é verdade para o Brasil que, no entanto, decide adicionar a crise política como mais um fator complicador.

Na China, os dados de atividade referente a abril mostraram avanço na produção industrial, enquanto as vendas no varejo permanecem pressionadas. Dado a reabertura da economia local, os dados reforçam a tese de que a recuperação do setor de serviços poderá ser consideravelmente mais vagarosa do que o setor manufatureiro. A implicação desta possibilidade é que as economias desenvolvidas têm um setor de serviços maior, o que leva à conclusão que a recuperação será mais em “U” do que em “V”. Por outro lado, dados de crédito divulgados no começo da semana reforçam a percepção de que o governo atuará fortemente para sustentar o crescimento uma vez passado este estágio inicial da epidemia, ainda que considerações relativas ao nível geral de endividamento restrinjam uma atuação mais pesada como a observada no começo da década passada.

Na Europa, as notícias em relação ao vírus são majoritariamente positivas. Praticamente todos os países já adotaram relaxamento do isolamento social, ainda que os passos em direção a normalização sejam cautelosos. Ainda que confiança seja essencial para uma retomada completa, a permissão de retomada de certas atividades por si já garantirá uma estabilização da forte desaceleração observada ao longo dos últimos dois/três meses.

Já nos EUA, tivemos alguns desenvolvimentos bastante relevantes. Por um lado, os dados de inflação mostram que o efeito do choque do coronavirus é, ao menos por hora, amplamente deflacionário (conforme nossa expectativa). Os dados do índice de preços ao consumidor vieram fracos, refletindo a fraquíssima demanda. Isto também pode ser observado pelas vendas no varejo divulgadas na sexta-feira, que tiveram o desempenho mais fraco da série histórica. Essencialmente, o americano médio retraiu fortemente o consumo ante a incerteza reinante sobre os próximos meses.

Em termos de política monetária, Jerome Powell discursou na quarta-feira e, junto com outros membros do FOMC que falaram ao longo da semana, tentou rechaçar a possibilidade de que o FED adote taxas de juros negativas para estimular a economia. Escrevemos largamente a respeito nas últimas semanas. Acreditamos que, dada a estrutura do mercado financeiro americano e o amplo ceticismo dos membros do FED, as chances de taxas de juros negativas nos EUA são absolutamente remotas. Por outro lado, vemos alguma probabilidade de adoção formal de uma meta de inflação “em média” (o que representa um comprometimento com o overshoot controlado da inflação) ou então de objetivos diretos para vértices específicos da curva de juros (yield curve control).

No Brasil, a PMC e a PMS mostraram a deterioração consequente da quarentena implementada em diversos. O mesmo quadro já havia sido observado na leitura da PIM na semana passada. No entanto, para além dos efeitos negativos que a pandemia tem na atividade, o ciclo político tem total capacidade de acentuar o problema.

Neste sentido, a semana começou novamente complicada, com fortes embates entre o presidente Jair Bolsonaro e governadores estaduais, além de desdobramentos relativos ao vídeo da reunião ministerial do dia 22/04 que levou ao pedido de demissão do ex-ministro da justiça Sérgio Moro. Ao mesmo tempo, para adicionar um tom de heterodoxia à nossa política, o senado passou a contemplar a possibilidade de medidas que afetariam fortemente o setor financeiro, com projetos para regulação de juros e aumento de impostos.

Por outro lado, na quinta-feira tivemos um desenvolvimento minimamente positivo com a reaproximação entre o presidente Bolsonaro e o presidente da Câmara Rodrigo Maia. Mas, como no Brasil até o passado é incerto, o pedido de demissão do ministro da saúde Nelson Teich volta a deixar o cenário absolutamente incerto. Ressaltamos, como feito anteriormente, que os problemas de governabilidade que estamos enfrentando aumentam os riscos do combate à pandemia e reduzem a possibilidade, uma vez superada a crise de saúde, de retomada da agenda de reformas. Ou seja, a distribuição de probabilidades para o Brasil é pior do que era no começo do ano, o que obriga um preço de equilíbrio pior.

Em termos monetários, o Banco Central divulgou a ata da sua última reunião e referendou o cenário de mais um corte de 50 ou 75bps para a reunião de junho. Na medida em que o dólar manteve a valorização contra o real durante a semana, o BC atuou pesadamente na quinta-feira no câmbio pronto, o que impactou diretamente a cotação da moeda. Se não fosse a manutenção constante da tensão política, indicaríamos a relevância da atuação do BC não poderia ser menosprezado e acreditaríamos em uma acomodação do dólar no curto prazo.

Em suma, o cenário político seguirá determinante aqui no Brasil e os sinais são negativos. Retomamos o dito anteriormente: “O cenário político segue muito desafiador. O presidente está isolado e sem base, enquanto diversos elementos no Congresso Nacional ensaiam projetos com elevado custo, o que aumentará excessivamente o nível de dívida. […] o real (deve continuar) com pressão vendedora tanto pela erosão do carrego (SELIC mais baixa) como pela deterioração da projeção fiscal e do aumento dos ruídos políticos. Não menos importante, os últimos desenvolvimentos políticos impactam fortemente nas expectativas de retomada da economia. A bolsa pode se beneficiar da postura de política monetária acomodativa. Entretanto, faz-se necessário tomar alguma cautela com eventos de cauda advindos da política e saúde aqui no Brasil.