Chegamos ao final de uma semana movimentada em todos os aspectos (menos o político, talvez). Na atividade tivemos a divulgação do IBC-Br. Na inflação, a leitura do IPCA fechado de abril e, finalmente, na política monetária, a divulgação da ata da última reunião do COPOM. No cenário externo, destaque para a inflação dos EUA medida pelo CPI.

O que vale ressaltar em relação aos eventos listados é justamente o último. Vimos um avanço muito forte da inflação subjacente nos EUA, com leitura de 0,9% na variação mensal. Este número realmente impressiona e é o mais forte desde o começo da década de oitenta. Ele evidentemente levanta dúvidas sobre a capacidade do FED em manter a política monetária ultra expansionista por muito tempo.

No entanto, a abertura do índice mostra algumas questões relevantes. Primeiramente, os preços de carros usados avançaram 10% no mês, muito em consequência da queda de oferta de carros novos por conta do gargalo na produção de semicondutores que vem impactando diretamente a indústria automobilística. Somente a rubrica “carros usados” adicionou 0,35% na inflação de abril.

Outro elemento relevante é a rubrica de transportes aéreos. Por um lado, ela foi sempre altamente volátil (reconhecendo o duplo sentido do comentário). Por outro, temos também um forte aumento de viagens para os EUA em consequência da reabertura.

A sinalização aqui é bastante importante: observaremos ao longo do segundo trimestre uma série de descasamentos entre ofertas e demandas na economia americana (e em todas que passem por processos de reabertura), o que provocará forte volatilidade dos dados.

Quanto ao FED, ficaremos sujeitos ao continuo questionamento sobre a possibilidade de a autoridade monetária manter sua política monetária atual. De nossa parte, seguimos acreditando que o mais provável é que o tapering efetivamente comece somente no ano que vem. A dicotomia entre os dados de mercado de trabalho do Payroll na semana passada e o CPI nesta mostra evidentemente a dificuldade de formulação correta no cenário. Caso as surpresas inflacionárias se repitam, nossa projeção pode ser alterada.

No Brasil, destacamos a leitura dos dados de atividade melhores do que o esperado para o mês de março. Com isso, definimos nossa projeção de PIB do primeiro trimestre em 0,7%. Evidentemente, a economia sentiu menos o impacto das medidas de restrição do que o que era esperado.

Por outro lado, a ata do COPOM mostrou um viés dovish. A autoridade monetária voltou a colocar em dúvida as projeções que mostram normalização quase que linear da taxa SELIC até 6,5%. Nossa projeção permanece inalterada em 5% no final deste ano e 6,5% no final do ano que vem. Os riscos neste sentido são os mesmos: se a inflação se provar mais persistente do que esperamos ou se houver uma deterioração significativa dos fundamentos macroeconômicos por conta da política fiscal, o Banco Central poderá ser obrigado a implementar uma normalização mais acelerada da SELIC.

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais.