A semana foi intensa, tanto no mercado internacional como no local. Dada as dimensões do problema local, o comentário externo fica naturalmente menor e vamos chamar atenção somente para a nova rodada de estímulo fiscal nos EUA e a impressionante dinâmica do petróleo na segunda e terça-feira. Aqui no Brasil, destaque natural para saída do Ministro Sérgio Moro do ministério da justiça.

Invertendo a ordem normal, começaremos pelo Brasil. Infelizmente, a dinâmica dos eventos recentes levanta sérias questões obre a estratégia de alocação que comentávamos anteriormente. Com a saída do Ministro Sérgio Moro do ministério da justiça confirmando o cenário de crise política e o Presidente Jair Bolsonaro indo cada vez mais em direção ao seu núcleo duro de apoio, resta evidente que a as relações de poder seguirão determinando o preço de ativos no Brasil ao longo dos próximos meses. Dado o cenário atual, isto é evidentemente negativo.

Não pretendemos nos aprofundar em questões políticas, mas dada a magnitude da crise econômica, é essencial que haja ampla coordenação e transparência entre os diversos poderes e os entes subnacionais. Os eventos da última semana reforçam de sobremaneira como o executivo gera excessivo ruído e poucas soluções práticas para a crise.

Por outro lado, o anuncio do plano de crescimento na quarta-feira, à revelia da opinião do Ministro da Economia Paulo Guedes, levanta mais um ponto de interrogação quanto a trajetória e sustentabilidade fiscal brasileira. Diferente de outros países emergentes, entramos na crise do coronavirus com um fiscal já extremamente frágil e necessidade de fortes ajustes. O salto no déficit deste ano e a perda de perspectiva do possível ajuste eleva o prêmio de risco cobrado da economia brasileira (leia-se, eleva a nossa taxa de juros real).

O ajuste da equação foi ao longo da semana principalmente no dólar (desvalorização do real), especialmente após serem reforçadas as expectativas de corte da taxa SELIC na próxima reunião do COPOM. No entanto, a explosão do risco político na quinta-feira à tarde nos lembrou dos riscos de uma postura monetária excessivamente acomodativa em países emergentes: houve forte movimento de abertura da taxa de juros e queda da bolsa.

Acreditamos que a desvalorização do real não é meramente um ajuste à taxa de juros mais baixa (como defendida por parte da equipe econômica), mas sim reflexo de ampla incerteza que paira sobre a economia brasileira no quesito de reformas, fiscal e político. Infelizmente, a sustentação da moeda faz-se necessária via juros, já que não será possível via crescimento. O mercado está desmontando rapidamente as apostas de corte da taxa SELIC nos movimentos mais recentes e seria bastante prudente para o Banco Central aguardar antes de tomar atitudes intempestivas.

No cenário internacional, mencionamos somente a aprovação de nova rodada de estímulo fiscal nos EUA, que visa sustentar o programa de empréstimo para pequenos negócios. Apesar da medida ser relevante, ela reforça um elemento que comentamos anteriormente: o setor público está somente suavizando parte da perda de PIB e não será suficiente para evitar uma forte contração ao longo do segundo trimestre.

Ademais, o petróleo teve movimentação destacada na semana, com o preço do barril indo a valores negativos na segunda-feira. Isto refletiu, principalmente, o vencimento dos contratos futuros com entrega física de maio (terça-feira) e a lotação dos reservatórios nos EUA. Assim, havia prêmio para o recebimento da commodity. De qualquer forma, fica evidente o cenário delicado da economia americana, com clara falta de demanda refletida na dinâmica de preços.

Retomamos o caso brasileiro a título de conclusão: a dinâmica presente da política e da econômica (bem como suas interações) levam a crer que passaremos por um momento de elevação dos prêmios de risco. Isto por sua vez, reflete-se em necessidade de juros mais elevados e moeda desvalorizada, ao mesmo tempo em que dificulta a retomada pós crise do coronavirus. Evidentemente a situação é fluída e recomendamos cautela aos próximos passos que a política ditará à economia.

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais.