A primeira semana de junho vai chegando ao fim com os mercados focados única e exclusivamente em um assunto: esquecer a pandemia. Parece uma afirmação rudimentar, mas os dados ao longo das últimas duas semanas alimentaram a retórica de uma recuperação em V (que, embora verdade em termos de variações mensais, não adere aos fatos em termos de variação em doze meses), enquanto os países que promoveram reabertura (especialmente na Europa e os EUA) ainda não apresentam riscos de uma segunda onda de contaminações. Na medida em que o executivo brasileiro adotou medidas de aproximação com os outros poderes, o trade da semana foi firmemente centrado em compra de bolsa e venda de dólar.

No cenário internacional, as tensões entre EUA e China diminuíram após o discurso de Donald Trump na sexta-feira da semana passada. Apesar da retórica, o presidente americano não apresentou medidas que visem o desmonte do acordo comercial firmado no começo do ano. Por outro lado, os dados na economia americana surpreenderam positivamente o consenso do mercado, somando-se a uma tendência bastante clara nas economias desenvolvidas como um todo.

Temos uma interessante avaliação do Banco Central da Austrália sobre o fenômeno: os dados parecem corroborar que a trajetória econômica não seguirá o previsto nas projeções dos piores cenários, mas sim algo parecido aos cenários intermediários. Abordamos este assunto em março: durante as semanas iniciais da pandemia na Europa, o mercado, na falta de informação sobre o que precificar, passou a precificar o colapso econômico completo. No entanto, na medida em que a evolução da pandemia melhorou, o mercado também pode precificar uma situação menos catastrófica.

O payroll, dado de mercado de trabalho nos EUA, merece especial destaque neste cenário. O dado divulgado hoje (05/06) apresentou criação de mais de dois milhões de postos de trabalho (ante expectativa de destruição de sete milhões e meio de postos). A melhora se comparado ao mês anterior é evidente. No entanto, ainda permanecemos significativamente pior do que no começo do ano. Esta dicotomia entre melhora sequencial versus níveis de atividade muito baixos em janelas mais longas será uma constante nos próximos meses.

Ainda no campo internacional, o Banco Central Europeu (ECB, na sigla em inglês) abriu a temporada dos grandes Bancos Centrais no mês de junho com surpresas positivas para o mercado. O ECB aumentou o orçamento de seu programa emergencial de compra de títulos (PEPP), ao mesmo tempo em que indicou a extensão de sua implementação até ao menos meados do ano que vem. O ECB também se comprometeu com combater os riscos de divergência de taxas nas Zona do Euro, garantindo um efeito positivo para o mercado.

No Brasil, a despeito das manifestações de domingo, fomos surpreendidos ao longo do começo da semana com movimentações do executivo federal em direção a uma aproximação com o judiciário. Foi noticiado que o Presidente Jair Bolsonaro conversou com o ministro Alexandre de Moraes e que ministros de estado tiveram reuniões com integrantes do STF.

Acreditamos que esta sinalização é relevante, reforçando a tese de que o governo se sente pressionado para manter relação mais amena com os outros poderes. Isto, por sua vez, garante maior atenção às necessidades políticas do país durante combate ao coronavirus. No congresso, tivemos novo adiamento das propostas heterodoxas relativas ao mercado de crédito. Do lado negativo, voltou para a mídia a discussão sobre um novo REFIS.

Finalmente, sobre política monetária, comentários do diretor do Banco Central Fabio Kanczuk no começo da semana levaram o mercado a precificar que 2.25% poderia não ser o piso da taxa SELIC. Nossa expectativa para a próxima reunião segue firme em torno de um corte de 0.75%, mas evidentemente é difícil antecipar que necessariamente o piso da SELIC ocorra após este corte. Assim, aumenta a probabilidade de testes em patamares abaixo de 2%.

O risco que vemos no cenário no momento permanece atrelado a pandemia e a política: por mais que os sinais iniciais da reabertura sejam positivos, não há como reafirmar categoricamente que não existe risco de uma segunda onda. Neste sentido, a volta da ameaça do coronavirus em Israel, país que tem servido como bom antecedente para os movimentos de reabertura na Europa, acendem o sinal amarelo. Ao mesmo tempo, a pandemia não dá sinais de arrefecimento no Brasil, o que será condição necessária para retomada do crescimento cíclico. Desenvolvimentos políticos permanecem no radar e atenção máxima deve ser dada a evolução dos fatos em Brasília, visto que a melhora das últimas semanas foi provocada também pelo apaziguamento relativo entre poderes.

Em suma, vemos espaço para manutenção dos movimentos do mercado. A reunião do FOMC na próxima semana (10/06) deverá reforçar o comprometimento do FED com a política monetária expansionista. Atrelado a melhora sequencial dos dados, as bolsas passarão a precificar melhora a frente na situação, amparadas pela ampla liquidez. O dólar global dá sinais de enfraquecimento movido pelos mesmos diagnósticos.

Portanto, seguimos acreditando em alocação em bolsa no Brasil e, para fechar as peças do quebra-cabeça, acreditamos que falte convergência dos juros futuros em vértices longos. Para isto, no entanto, precisaremos provavelmente de uma guinada nas (péssimas) expectativas de trajetória fiscal. Vale sempre a ressalva da fluidez da situação, o que enseja cuidado quanto aos sinais mais sutis de uma possível realização. Ou seja, há de se monitorar as caudas descritas no parágrafo anterior para aproveitar a valorização dos ativos que vemos no momento.

Por Felipe Sichel