O final de julho e começo de agosto é sempre interessante. Via de regra (a enorme exceção tendo sido o ano passado), temos um período de maior tranquilidade nos mercados por conta do verão no hemisfério norte e também do recesso parlamentar em Brasília. Este deve começar oficialmente hoje (16/07) e se estender até o final do mês o que, dados os ruídos políticos das últimas semanas, com certeza contribuirá para uma menor volatilidade advinda de Brasília. No cenário externo a grande dúvida permanece em torno da variante delta da COVID-19.

Alguns países europeus apresentam surtos significativos desta variante e os EUA começam a registrar um aumento também relevante de casos. De forma geral, indicações advindas de Israel e do Reino Unido demonstram que tanto as vacinas mRNA (Pfizer e Moderna) como as vacinas de Oxford e da Johnson garantem proteção elevada contra casos graves desta variante.

No Reino Unido vemos um descolamento relevante entre novos casos e hospitalizações, o que pode ser indício de que de fato haja contaminação com a variante, porém quem se contamine e esteja vacinado não precisará de cuidados médicos. Comparado a um mundo sem vacina, é definitivamente uma notícia animadora.

Isto é uma indicação positiva para o Brasil, que tem utilizado uma parcela crescente destas vacinas em sua imunização. Quanto a vacinas que utilizam tecnologia de vírus inativado (Coronavac no Brasil), ainda há poucas informações. Isto decorre, principalmente, do fato destas vacinas serem usadas em regiões onde a variante delta ainda não foi registrada de forma significativa (entre elas o Brasil).

Outro fator relevante da economia global foi evidenciado nesta semana pela divulgação dos dados de atividade da China. A segunda maior economia do mundo está passou por um processo de desaceleração no primeiro semestre, decorrente principalmente do forte crescimento registrado no segundo semestre do ano passado (vale lembrar que a China foi a primeira grande economia a superar a primeira onda do Coronavírus).

Isto será intensificado este trimestre pela demanda local ainda bastante acanhada, resultante da necessidade de fechamentos repentinos de diversas localidades por conta de novos surtos da COVID. Por outro lado, o setor exportador segue sólido e tem se beneficiado do reordenamento de cadeias produtivas que enfrentam dificuldades no sudeste asiático. Para evitar uma desaceleração excessiva da economia, as autoridades já estão atuando em uma série de medidas pontuais que devem ajudar a estabilizar o crescimento até o final do ano.

Finalmente, o Brasil teve poucas novidades na semana. A discussão política em torno da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e a Reforma do Imposto de Renda deve perder um pouco de preponderância nas próximas semanas na medida em que o Congresso entra em recesso de meio de ano. Concomitantemente, a CPI da COVID também terá de suspender os trabalhos, o que garantirá redução dos ruídos advindos de Brasília.

Por outro lado, espera-se que a vacinação siga com o forte ímpeto registrado ao longo das últimas semanas (já estamos há mais de um mês com média móvel de mais de um milhão de doses aplicadas por dia). Isto ajudará a trazer ainda mais alívio nos indicadores da pandemia ao longo do tempo e levará também a novas surpresas positivas em termos de crescimento. Por outro lado, o cenário inflacionário torna-se mais complexo e pode obrigar o COPOM a subir a taxa de juros em 1% na próxima reunião.

Seguimos otimistas com ativos brasileiros após um solavanco no começo deste mês. No entanto, a perspectiva parece positiva apesar dos percalços. Teremos um terceiro trimestre de um cenário global um pouco mais ameno junto com uma economia que começa a colher os frutos da vacinação. Ainda assim, persistem os riscos já tradicionais do Brasil, o que sempre enseja cautela.

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais.