A semana foi repleta de indicadores econômicos relevantes. Tivemos indicação de inflação mais elevada no IPCA, com atividade mais baixa medida pelas vendas no varejo. O clima da conjuntura política também esquentou, com a decisão do ministro Edson Fachin tornando o ex-presidente Lula novamente elegível. Ademais, a PEC Emergencial finalmente foi aprovada na Câmara (ainda que desidratada). Não menos relevante, houve forte intervenção do Banco Central na moeda. Ante este amplo conjunto de informações, questiona-se naturalmente qual a resposta que o COPOM dará a conjuntura econômica. Nossa perspectiva é clara: elevar a SELIC dado a piora do cenário inflacionário e a clara mudança na percepção de risco do país.

O cenário econômico é conturbado. Vemos a aceleração da pandemia em diversos estados do Brasil com preocupação. Apesar de nossa projeção para vacinação ser otimista, sabemos que ela não tem impacto na trajetória dos indicadores presentes da COVID. O efeito será sentido somente quando uma ampla parcela da população for imunizada. Esta piora dos indicadores leva a imposição de restrições à mobilidade em diversos estados, o que é naturalmente inibidor da atividade econômica. Já vimos este filme no ano passado e a indicação para o primeiro trimestre (principalmente março) é semelhante. No entanto, muitos setores aprenderam a se adaptar à pandemia, o que sugere que o impacto na atividade será menor do que foi há um ano.

Ainda assim, a queda da atividade gera impacto na renda e aumenta, automaticamente, o ímpeto de gasto nas autoridades políticas. Matérias como a de quinta-feira, que já indicavam possível extensão do auxílio emergencial, mesmo sem esta nova rodada nem ter sido implementada, parecem quase inevitáveis.

Somando-se às dificuldades políticas temos dois fatos intimamente vinculados ao executivo: por um lado, houve clara interferência do Presidente pela desidratação da PEC Emergencial, tanto no Senado, como na Câmara. Reiteramos que estas posições, atreladas a outras como a demissão de Castello Branco da Petrobras reforçam a percepção em torno de tendências populistas do governo e reduzem a credibilidade de qualquer agenda de controle das contas públicas (já bastante danificada). Tudo mais constante, isto é evidente fonte de aumento do risco para o país.

O outro fator a ser mencionado é a decisão do ministro Edson Fachin que tornou o ex-presidente Lula novamente elegível. Sem entrar em questões jurídicas, a consequência evidente disto é antecipar o ciclo eleitoral e toda a incerteza associada. Como é bem conhecido na literatura acadêmica, elevação de incerteza provoca queda em consumo e investimento dos agentes. Com menos crescimento, o preço dos ativos se equilibra em nível mais baixo.

Chegamos, finalmente à discussão da inflação. A leitura de fevereiro do IPCA foi acima das nossas expectativas. A revisão dos preços de combustíveis e a desvalorização do real estão deixando sua marca nos índices de preço. Já projetamos, para 2021, inflação acima de 5% se não houver rápida reversão da trajetória da moeda. Esta deterioração das expectativas também é vista no relatório FOCUS do Banco Central. É interessante perceber, no entanto, que as expectativas para 2022 seguem estáveis na meta. Isto é possível, somente, por conta também de uma revisão paulatina nas projeções da taxa SELIC.

Como fator adicional, o Banco Central demonstrou ao longo dessa semana intensa atividade no mercado de câmbio, atuando desde quarta-feira através de diversos instrumentos. A sinalização é clara em torno do desconforto com o nível de câmbio nominal prevalecente. Dado, no entanto, a taxa de juros real negativa que observamos atualmente, seria razoável supor que o câmbio somente se estabilizará quando o BC elevar suficientemente a taxa de juros a ponto de provocar uma elevação substancial da taxa de juros real. Esperamos ver mais sinalização a respeito disso nos próximos comunicados oficiais da autoridade monetária.

Em suma, ante um cenário político incerto e piora nos indicadores de inflação, acreditamos que o caminho natural para o COPOM será elevação da taxa SELIC na reunião da próxima semana. Isto ocorre apesar da expectativa de desaceleração da atividade. A nossa projeção antevê elevação da taxa em 50bps para 2,5% e posterior elevação até 5% antes do final do ano. Apesar de acreditarmos que a conjuntura possa justificar uma elevação ainda maior nesta reunião, a comunicação recente do Banco Central parece indicar um início de ciclo mais moderado. Será muito relevante ficar atento ao comunicado da próxima quarta-feira. Sem dúvidas trará informações relevantes para a projeção da SELIC e de preços de ativos à frente.

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais.