O COPOM manteve a taxa SELIC inalterada em 2%, em linha com o esperado por nós e pelo mercado. O comunicado apresenta viés dovish, mesmo com a retirada de possibilidade de novos cortes. O forward guidance foi mantido, conforme as expectativas e as condições para sua manutenção foram julgadas como satisfeitas. Mesmo com o balanço de riscos contemplando alerta para o aumento dos riscos fiscais no cenário, o tom foi mais ameno do que o antecipado.

As expectativas de inflação divulgadas mostram no cenário básico (taxa de juros extraída do Relatório Focus e câmbio constante a R$/USD 5,60) inflação de 3.1% em 2020, 3.1% em 2021 e 3.3% em 2022. O cenário supõe juros finalizando 2020 em 2.0%, 2021 em 2.75% e 2022 em 4.5%.

No cenário com taxas de juros constantes a 2.0%, e taxa de câmbio constante a R$/USD 5,60 a expectativa de inflação está em 3.1% para 2020, 3.2% para 2021 e 3.8% para 2022 (contra 2.1%, 3% e 3.8% no comunicado anterior, respectivamente).

Nota-se que as projeções seguem mostrando espaço, ao menos teórico, para mais ajustes da SELIC. Quanto a inflação realizada, o COPOM mantém perspectiva tranquila, ressaltando que houve surpresa nas últimas leituras (justificado por alimentos e bens industriais), mas ressalta que o diagnóstico é de um choque temporário. Vale ressaltar, no entanto, que o BC adicionou que “monitora sua evolução [da inflação] com atenção”.

O forward guidance foi mantido e o balanço de riscos evoluiu, mas a combinação de ambos reforça a percepção de necessidade atuação do Banco Central somente no caso os riscos fiscais se materializem. Soma-se ainda que o COPOM vê as condições para manutenção do forward guidance como ainda válidas.

De forma geral, esta combinação tem tom dovish por mostrar o COPOM aparentemente menos preocupado com o fiscal do que o mercado e reforçar a possibilidade de manutenção da SELIC no patamar atual (“O Comitê considera adequado o atual nível de estímulo monetário que vem sendo produzido pela manutenção da taxa básica de juros em 2,00% a.a. e pelo forward guidance adotado em sua 232ª reunião, segundo o qual o Copom não pretende reduzir o grau de estímulo monetário desde que determinadas condições sejam satisfeitas”)

O COPOM reforça assim sua posição secundária ante a evolução das discussões relativas ao Teto de Gastos ao longo do final do ano.

Somando-se as projeções de inflação à retórica tranquila quanto a sua trajetória ao longo do horizonte relevante, temos um cenário também que sugere que o Banco Central não se precipitará para elevar a taxa de juros neste momento caso o arcabouço fiscal atual seja mantido. A classificação relativa ao choque recente na inflação reforça esta perspectiva. Assim, a leitura geral do comentário é dovish.

Esperamos agora pela ata da reunião para uma maior discussão dos determinantes da decisão do COPOM.