O COPOM manteve a taxa SELIC inalterada em 2%, conforme amplamente antecipado pelo mercado. Também em linha com nossa expectativa, o Forward Guidance foi mantido. Ainda assim, há um evidente alerta para a iminente possibilidade de retirada deste instrumento do comunicado. No geral, o comunicado teve tom mais hawkish sob ótica das expectativas de inflação de 2022 em torno da meta e perspectiva de retirada do forward guidance.

A avaliação mostra, em linha com outros Bancos Centrais, aumento da preocupação de curto prazo com o avanço dos índices de contaminação da pandemia, enquanto o longo prazo é beneficiado pela perspectiva de implementação da vacina.

A classificação da atividade no Brasil mantém a perspectiva de recuperação desigual entre setores e reforça a incerteza em torno da trajetória daqui para frente por conta dos pontos expostos no parágrafo anterior.

Em termos de inflação realizada, o comitê manteve postura exposta anteriormente, indicando que o choque nos preços observados até agora é temporário. Faz também referência a expectativa de aceleração no curto prazo por conta da revisão das bandeiras tarifárias. Mantém tranquilidade em relação as leituras subjacentes.

As expectativas de inflação mostram cenário básico (juros focus e câmbio partindo de R$ 5,25/US$ e evoluindo segundo PPC) mostram inflação de 4.2% em 2020, 3.3% em 2021 e 3.5% em 2022 (anterior: 3.1%, 3.1% e 3.3%, respectivamente). Os juros saem de 2% este ano e se elevam para 3.0% em 2021, 4.5% em 2022 (anterior: 2.75% e 4.50%, respectivamente).

Já as expectativas no cenário de juros constantes a 2% (câmbio partindo de R$ 5.25/US$ e evoluindo segundo PPC) mostram expectativas de 4.3% em 2020, 3.5% em 2021 e 4% em 2022 (anterior: 3.1%, 3.2% e 3.8%, respectivamente).

Nota-se que em ambos os cenários as projeções de inflação permanecem abaixo das metas nos horizontes 2021, mas convergem para a meta em 2022. No cenário com juros constantes ela fica acima da meta.

O balanço de riscos mantém a retórica de riscos baixistas associados a ociosidade no setor de serviços. Já o risco fiscal teve um ajuste positivo (i.e., menor risco), mas segue como elemento que necessita de monitoramento constante do BC (“O risco fiscal elevado segue criando uma assimetria altista no balanço de riscos”). Sobre a continuidade das reformas, o COPOM mantém a retórica anterior (“O Comitê ressalta, ainda, que questionamentos sobre a continuidade das reformas e alterações de caráter permanente no processo de ajuste das contas públicas podem elevar a taxa de juros estrutural da economia.”).

Sobre o forward guidance, o COPOM destaca o espaço das condições para sua manutenção pode estar se reduzindo por conta da elevação das expectativas de inflação para 2022 (que é crescentemente o foco de atenção do BC). Assim, o COPOM começa a preparar a retirada desta ferramenta do comunicado, alertando, no entanto, que isto não implica imediata elevação da taxa SELIC. O comunicado reforça que a política monetária seguirá as regras do regime de metas de inflação.

Assim, o comunicado tem tom mais hawkish e o COPOM ganha em opcionalidade para retirar o forward guidance em sua próxima reunião, desenvolvimento que passa a ser nosso cenário base. Mantemos ainda assim perspectiva que a SELIC permanecerá estável até o final do primeiro semestre.

 

Por Felipe Sichel, estrategista Modalmais