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Em uma semana escassa de dados econômicos, a política (local e internacional) ganhou o destaque nos mercados e foi responsável por movimentos relevantes. No cenário externo, seguimos com movimentos de aumento nos confrontos diplomáticos entre EUA e China. A escalada é significativa e, como essa semana bem mostrou, já não pode ser ignorada pelo mercado. Por outro lado, o cenário local foi dominado pela votação do FUNDEB e apresentação do plano de reforma tributária do governo.

No cenário externo, a relação dos EUA com a China teve nova rodada de deterioração. O governo americano ordenou o fechamento do consulado chinês em Houston na quarta-feira por conta de suspeita de roubo de propriedade intelectual. Em contrapartida, a China ordenou o fechamento do consulado americano em Chengdu. Ambos os movimentos são relativamente comensurados, mas a aparição de Mike Pompeo, Secretário de Estado dos EUA, aumentou consideravelmente as preocupações em torno da relação bilateral. Pompeo reforçou as críticas norte-americanas à China e levantou a questão comercial, classificando-a como “não prioritária” para o governo americano neste momento.

Nosso suposto de trabalho é que o cenário eleitoral servirá de pano de fundo para uma relação bilateral bastante turbulenta ao longo deste ano. O risco central é que o aumento da tensão diplomática resulte em algum tipo de incidente mais grave (leia-se, acidentes no Mar do Sul da China) ou então no desmonte do acordo comercial (e, consequentemente, da relação comercial) entre ambos os países. Estes dois elementos não fazem parte do cenário base, mas o risco em torno a eles certamente aumentou.

Por outro lado, o mercado se prepara para a reunião do FOMC na próxima quarta-feira. Espera-se poucas novidades. Apesar de membros do FED terem comentado diversas vezes que há sinais de estagnação na recuperação por conta da retomada do surto de COVID-19 nos estados do sul do país, as condições financeiras não deterioraram a ponta de justificar atuação imediata por parte do FOMC. Assim, espera-se que a escolha por utilização de forward guidance seja postergada para a reunião de setembro.

Finalmente, a Europa dá sinais positivos em termos políticos e econômicos. Por um lado, aprovou-se o fundo de resgate do bloco, que ficou marginalmente abaixo das expectativas de mercado, mas com um aumento no montante das transferências realizadas para a Itália. Por outro lado, os dados de PMI (pesquisa cíclica indicativa da atividade) surpreenderam positivamente, mostrando que a economia segue se recuperando após o choque do final do primeiro trimestre. Note-se, evidentemente, que esta recuperação ocorre quando consideramos a base extremamente deprimida que preponderou em março e abril deste ano.

No Brasil, o destaque foi a entrega da proposta de reforma tributária pelo governo no começo da semana. Para não entrar em repetições sobre o que já foi amplamente comentado, destaca-se somente que a tramitação da reforma será complexa e que o projeto entregue pelo governo até o momento é acanhado. A indicação de que teremos mais etapas de divulgação é relevante, mas infelizmente já vemos este filme desde o final do ano passado, sem avanços significativos nas propostas do executivo. A projeção central permanece de aprovação de uma reforma tributária na Câmara este ano e no Senado no ano que vem.

Por outro lado, a derrota sofrida pelo governo na votação da PEC do FUNDEB reforçou a tendência do presidente Jair Bolsonaro em se alinhar ao centrão para construir uma base governista (minimamente) estável. Notícias veiculadas desde quarta-feira dão conta de mais um esforço de centralização da articulação política nas mãos do General Luiz Eduardo Ramos. Por outro lado, há também clara perda de espaço de figuras alinhadas aos bastiões mais radicais de apoio ao presidente.

Finalmente, o dado econômico de destaque da semana foi o IPCA-15, divulgado hoje (sexta-feira). Ele veio abaixo das nossas expectativas, avançando somente 0.3% no mês e com forte impacto do avanço dos preços administrados. O cenário benigno de inflação misturado à incerteza da retomada de atividade e expectativas de inflação bem controladas devem reforçar as apostas em torno de mais um ajuste (para baixo) da taxa SELIC na próxima reunião do COPOM.

Em suma, temos um cenário em que as incertezas globais aumentam, enquanto o quadro local permanece razoavelmente estável. Evidentemente houve grande movimento de preços, mas sustentamos ainda que as taxas de juros extremamente baixas a nível global deveriam favorecer alocação em bolsa. Ao mesmo tempo, caso o restante do mundo de sinais de recuperação como a Europa, isto representará mais um argumento favorável a tomada de risco. Os perigos centrais neste momento são a relação bilateral entre EUA e China e a pandemia, que segue avançando globalmente.

Por Felipe Sichel, estrategista.