Imprevisibilidade parece ser a melhor expressão para descrever o momento que vivemos na economia brasileira. Quando fazemos projeções, há sempre um grau de incerteza associado ao cenário. No entanto, temos de balancear riscos hidrológicos, inflacionários e políticos para tentar elaborar um cenário para crescimento, inflação e juros (consequentemente para preços de ativos). A semana que termina hoje (03/09) evidencia as dificuldades nesta elaboração.

A divulgação do PIB do segundo trimestre, abaixo do esperado por nós e pelo mercado, reforçou uma possibilidade que já vínhamos considerando: enquanto a indústria permanece pressionada por conta de problemas na cadeia de logística global (o que se mostrou novamente nos dados de produção industrial de julho divulgados esta semana), o setor de serviços se beneficia pela reabertura da economia.

Há de se considerar evidentemente que o PIB divulgado é uma olhada no retrovisor da economia. Muito mais relevante para os mercados são as projeções que fazemos à frente. Justamente por isso destacamos os riscos ao cenário no primeiro parágrafo.

Em relação à questão hidrológica, nota-se que a sociedade passa a contemplar os riscos de racionamento de forma mais clara ao longo desta semana. Nossa postura permanece absolutamente cautelosa. A superação dos próximos meses sem necessidade de medidas drásticas envolve basicamente a confirmação de fatores sobre os quais não temos nenhum tipo de ingerência (i.e., precisamos de chuvas).

Ao mesmo tempo, a superação da crise este ano não indica que ela não possa ocorrer novamente no ano que vem. Não há dúvida em todo caso sobre o que isto significa. Para o PIB, uma possível restrição energética é evidentemente um fator negativo.

Já pelo lado da inflação, seguimos projetando uma aceleração significativa este ano. A revisão da bandeira tarifária anunciada na terça-feira (31/08) levou nossa projeção para o ano fechado de 2021 a superar 8%. Apesar de, mecanicamente, vermos a possibilidade de o arrefecimento da crise hídrica produzir uma dinâmica de menos pressão inflacionária no ano que vem, ela por si só não será suficiente para levar a inflação à meta.

Ante riscos inflacionários altistas, a resposta do Banco Central tem de ser uma: aumento da taxa de juros. Antevemos para este mais uma alta da SELIC de 1% e aumenta de forma significativa que o final do ano veja juros em 8% ao invés de 7,5% como projetado anteriormente. O aperto da política monetária leva naturalmente a uma queda nas expectativas de PIB à frente.

Finalmente, persistem riscos políticos em toda direção. Brasília encontra-se na expectativa das manifestações da próxima semana, enquanto a visão de longo prazo já se encontra completamente dominada pela dinâmica eleitoral. Por sua vez, isto também reduz a possibilidade de avanço de reformas. A votação da Reforma do Imposto de Renda ocorreu de forma imprevista essa semana e, o texto aprovado, tem viés negativo para mercado.

Finalmente, em termos positivos, temos de destacar o avanço contínuo da vacinação (e seu impacto na redução dos índices relativos a Covid) e também um cenário fiscal que mostrou surpresas consistentemente positivas. Sobre este último fazemos uma ressalva: a foto está melhor (i.e, o momento atual é evidentemente mais positivo do que o suposto no começo do ano), mas a trajetória é muito relevante e sobre ela persistem dúvidas consideráveis (precatórios, Bolsa Família, novos subsídios, reforma do IR, etc.).

Em suma, diversos riscos nos levaram a reduzir a projeção do PIB do ano que vem para 1,6%. A definição mais imediata do que foi discutido neste texto também facilitará na projeção final dos principais indicadores macroeconômicos.

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais.