Chegamos ao fim da última semana completa de setembro, mais um mês que ficará marcado como repleto de debates em torno do problema fundamental da economia brasileira neste momento: intenso desequilíbrio fiscal. Além das discussões de praxe vimos também a divulgação da ata do COPOM, do Relatório Trimestral de Inflação e do IPCA-15 de setembro. No cenário externo, eleições americanas entraram oficialmente no radar do mercado.

No exterior, o falecimento da juíza da Suprema Corte Americana, Ruth Bader Ginsburg, levou à sugestão por parte do presidente Donald Trump de que o governo poderia indicar um substituto ainda antes da eleição. Ao mesmo tempo, o senado controlado por republicanos parece propenso a aprovar a nomeação.

Ainda que isto não gere alterações nas expectativas para a eleição de novembro, a discussão deixa evidente a dependência que haverá por resoluções judiciais de disputadas dominadas por votações à distância. Temos insistido recorrentemente em que a principal volatilidade nos mercados por conta da eleição ocorrerá após o pleito do dia 3/11, visto que o resultado em muitos estados será alvo de disputas judiciais profundas.

A alternativa possível é que seja anunciado ainda na semana do dia 3/11 que Joe Biden ganhou a Florida de forma inequívoca, o que dificultaria muito a trajetória de Trump para a reeleição. Por enquanto, mantemos nossa projeção de eleição de Biden e manutenção da maioria republicana no senado.

No Brasil, o destaque central ficou por conta do Banco Central. O Relatório Trimestral de Inflação (RTI) reforçou a tese do comunicado e da ata da última reunião do COPOM, demonstrando definitivamente que o BC vê poucas chances de aceleração inflacionária generalizada por conta da aceleração dos preços de alimentos.

Especificamente sobre isso, o IPCA-15 de setembro mostrou força nos alimentos, mas as medidas de núcleo e de serviços permaneceram tranquilas, sugerindo que, pelo menos no curtíssimo prazo, a tese do Banco Central se sustenta.

Por outro lado, o risco principal para o cenário permanece em torno da trajetória fiscal. Apesar de falta de maiores detalhes, fato é que a redução das ameaças ao teto de gastos dá um grau de tranquilidade ao BC. Assim, considerando-se todas as informações disponíveis, a opção do COPOM é evidente por manter a taxa de juros em 2% o máximo de tempo possível. Nossa projeção prevê aumento da taxa SELIC no final do terceiro trimestre do ano que vem.

Em outro assunto delicado, o tesouro nacional conseguiu reduzir o grau de estresse gerado pelos leilões recentes aumentando a oferta nos vértices mais curtos da curva. Apesar do alívio no mercado, preocupa-nos a perspectiva de aumento da necessidade de rolagem no segundo trimestre do ano que vem.

Finalmente, a reforma tributária ganhou novo fôlego com indicação de que o Presidente Bolsonaro estava se envolvendo mais ativamente na negociação com líderes parlamentares. Apesar da sinalização positiva, mantemos a tese de que o avanço das reformas está comprometido e que depende de sinalização clara por parte do executivo para avançar, o que parece cada vez mais complexo dada a proximidade das eleições municipais e da eleição para a presidência da Câmara e do Senado.

Em suma, temos um cenário de deriva no mercado local. Por um lado, as perspectivas fiscais e os riscos derivados da eleição americana ensejam cautela. Por outro lado, a inflação permanece tranquila pela análise do BC no curtíssimo prazo, garantindo que a taxa curta de juros permaneça ancorada. Vale notar também que vemos grande parte dos riscos já precificada, ainda que a confirmação da maior chance de eleição de Biden deveria contribuir para continuada pressão no mercado acionário americano.

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais