No cenário externo temos poucas novidades em relação ao avanço do vírus. A pandemia parece razoavelmente controlada na Europa Ocidental e em partes dos EUA, o que tem permitido a manutenção de planos de reabertura gradual. Por outro lado, a deterioração econômica decorrente de um severo choque de confiança e de demanda começa a se mostrar presente nos dados referentes a março e abril que estão sendo divulgados.

A Suprema Corte da Alemanha divulgou uma decisão que causou ruído ao longo da semana, questionando certos aspectos dos programas de compras de ativos implementados pela Bundesbank (Banco Central Alemão) em nome do Banco Central Europeu (BCE). Apesar da decisão, o funcionamento dos programas de compra está garantido. Ainda assim, a decisão ressalta novamente o descompasso que existe entre as diversas instituições nacionais e supranacionais na Zona do Euro, problema reforçado pela falta de união política e fiscal enquanto existe uma união monetária. Ainda que exista acomodação no curto prazo, a pergunta essencial sobre os destinos da Zona do Euro em particular e da União Europeia como um todo permanece absolutamente relevante. Eventualmente, os Estados-membro do bloco precisarão tomar uma decisão concreta sobre seus objetivos.

Nos EUA, vimos o ressurgimento da retórica belicosa em relação a China. Isto ocorre tanto no campo comercial como político, com diversas autoridades americanas levantando suspeitas sobre a real origem do novo coronavirus e exigindo reparações por parte da China. Uma ligação entre autoridades de ambos os países na quinta-feira à noite trouxe tranquilidade maior sobre a relação comercial, mas evidentemente a relação bilateral sairá afetada desta crise, principalmente se considerarmos a alta propensão do presidente Donald Trump para utilizar uma postura dura com interesses eleitorais.

Em termos de dados, o Payroll de abril mostrou destruição de 20.5 milhões de vagas de trabalho, com o desemprego saltando para 14.7%. O número evidencia a destruição de demanda que a pandemia do coronavirus está gerando em todo o mundo. A expectativa, evidentemente, é que a recuperação seja razoavelmente rápida uma vez que as medidas de isolamento social sejam relaxadas. Por mais que esta seja nossa tese, ressaltamos que a recuperação não deve ser imediata em todos os setores, haja vista que esperamos que industrias como entretenimento e turismo permaneçam pressionadas por longo período. A nossa projeção é que a taxa de desemprego possa cair para próxima de 7% ao final do ano que vem.

Assim, cria-se um ambiente de baixíssimas pressões inflacionarias, o que deveria permitir que o Banco Central americano mantenha política monetária expansiva por longo período de tempo. Em termos específicos de taxa de juros, dificilmente veremos qualquer menção a movimentação ao menos até o começo de 2022.

No Brasil, o destaque recai sobre a decisão do COPOM na quarta-feira passada, com corte da taxa SELIC em 0.75% para 3%. O COPOM renovou a mínima histórica da taxa básica de juros e indicou forte propensão a novo corte (de até 0.75%) caso não haja deterioração significativa do cenário fiscal ou inflacionário. Destacamos o nosso comentário divulgado na quarta à noite:

“O COPOM ressalta o evidente desejo de cortar novamente a taxa de juros SELIC em consequência da desaceleração. Acreditamos que há possíveis limites para atuação da política monetária na situação atual: há de se considerar a defasagem entre o impacto das decisões do BC na atividade real (algo entre três e seis trimestres) junto a relação não-linear que SELIC e Condições Financeiras podem ter este momento de elevada incerteza. […]

A desaceleração da economia justifica a maior acomodação monetária ante o cenário desafiador e, a julgar pelas expectativas de inflação, o movimento de cortes é necessário. No entanto, ressalta-se o tom dovish do comunicado e o comprometimento, já 45 dias antes da próxima reunião, a um novo corte.”

Por outro lado, o campo político decepciona. O depoimento do ex-ministro Sérgio Moro foi vazado no começo da semana, mas surtiu pouco efeito nos mercados. Por outro lado, o plano de auxílio emergencial a Estados e Municípios foi aprovado, mas, em uma incrível reviravolta que incluiu até mesmo o presidente, os congelamentos de salários até 2021 (que ajudariam a reduzir o impacto fiscal do plano) foram quase que retirados por completo.

Isto causou novo mal-estar entre o presidente Jair Bolsonaro e o ministro da economia Paulo Guedes, obrigando o primeiro a declarar publicamente que vetaria a retirada dos congelamentos. Agentes de mercado continuarão projetando alguma possibilidade da saída de Paulo Guedes da esplanada, ao mesmo tempo em que o avanço da agenda de privatizações e reformas (que elevaria o PIB potencial no Brasil) vai perdendo força e viabilidade. As discussões em torno do orçamento do ano que vem devem ser novo marco de atrito entre o presidente e o ministro e, caso o presidente permaneça sem base no Congresso, trará um potencial ainda maior de ruptura entre ambos.

O cenário político segue muito desafiador. O presidente está isolado e sem base, enquanto diversos elementos no Congresso Nacional ensaiam projetos com elevado custo, o que aumentará excessivamente o nível de dívida. Ao mesmo tempo, a falta de prioridade e liderança por parte do executivo dificulta a projeção de cenário e até mesmo o combate a pandemia.

Em termos de alocação, acreditamos que os juros curtos permanecerão baixos, mas isto tem reflexo negativo na parte longa da curva. Ao mesmo tempo, o real continuará com pressão vendedora tanto pela erosão do carrego (SELIC mais baixa) como pela deterioração da projeção fiscal e do aumento dos ruídos políticos. Não menos importante, os últimos impactam fortemente nas expectativas de retomada da economia. A bolsa pode se beneficiar da postura de política monetária acomodativa. Entretanto, faz-se necessário tomar alguma cautela com eventos de cauda advindos da política e saúde aqui no Brasil.