Semana movimentada para Bancos Centrais aqui e lá fora, com BCB e FED mostrando relevantes indicações futuras da trajetória de juros. Nos EUA, notícias positivas de vacinação reforçam as projeções altistas do PIB, enquanto aqui no Brasil a bagunça política e a deterioração nos indicadores da pandemia seguem pressionando os mercados.

Os comentários sobre o cenário externo são curtos nesta semana. Segue válido a nossa avaliação do começo do ano: a atividade econômica dependerá 100% da vacinação. Nos EUA o ritmo está acelerado e é possível projetar o início do fim da pandemia já nos próximos três meses. Por outro lado, a Europa segue com dificuldade de vacinar em massa e paira o risco de novas limitações no horizonte. Ou seja, mais atraso na recuperação econômica também.

O FED manteve os parâmetros de política monetária inalterados nesta reunião e, apesar de revisões consideráveis no PIB e na taxa de desemprego, a inflação ainda é vista como majoritariamente passageira e ficará muito próxima da meta do FED em 2023 (fim do horizonte de projeção). Assim, o FED justifica por enquanto a manutenção da retórica superacomodativa e indica que os juros não sobem pelo menos até dezembro de 2023. Nossa projeção, fazendo suposições relevantes sobre o ritmo de tapering (i.e., redução nas compras de ativos), supõe a primeira alta do ciclo somente em março de 2024.

No Brasil, a surpresa macroeconômica ficou por conta da divulgação do comunicado do COPOM na última quarta-feira. Surpreendendo o mercado, o Banco Central elevou a taxa de juros para 2,75% (nossa projeção era de elevação para 2,5%) e indicou de forma explícita que pretende elevá-la em 0,75% na próxima reunião também.

O comunicado tem leitura evidentemente hawkish. Ele elenca surpresas positivas na atividade e coloca menos ênfase na possibilidade de evolução negativa ao longo dos próximos meses, em consequência da retomada das medidas de restrição à mobilidade.

A argumentação do frontloading (i.e., antecipação das altas previstas) relacionada ao risco de estouro da faixa de tolerância em 2021 parece estar relacionada à possibilidade de nova rodada de desvalorização cambial. Para compensar isto, o Banco Central atuará para a “normalização parcial” de forma mais acelerada. Por outro lado, a preocupação com os horizontes mais longos sugere que o Banco Central está atento para não ter sua credibilidade questionada.

Assim, esperamos elevação de 75bps na próxima reunião do COPOM, com riscos de elevação de 100bps. Nossa projeção contempla SELIC encerrando o ano em 5%, com viés de alta.

O front político e a realidade da pandemia seguem complexos. A notícia positiva foi a votação dos vetos do Novo Marco Legal do Saneamento, que passou no congresso sem maiores dificuldades. No entanto, o restante do fluxo de notícias tem valência evidentemente negativa (troca de ministro, índices de pandemia piorando, saída do presidente do BB, enfrentamento entre o executivo e outros poderes, etc.).

Não entraremos no mérito de cada um dos fatores, mas ressaltamos a nossa lógica anterior em dois aspectos: (i) elevação da incerteza gerada por ruído político, mesmo que os riscos não se materializem, reduz o preço de equilíbrio de ativos e (ii) a resolução da pandemia através de ampla vacinação é o caminho mais evidente para retomada do crescimento sustentado do país ao longo do tempo.

Em suma, a semana trouxe indicações relevantes para projeção dos mercados. Acreditamos que a taxa SELIC, mesmo em alta, permanecerá em território estimulativo, o que sugere mais rotação entre ativos na bolsa, do que de fato realização. Por outro lado, o aumento do carrego deve dar sustentação ao real contra o dólar, enquanto taxas curtas mais elevadas ajudam a reduzir a inclinação da curva. Destaca-se, no entanto, que a possibilidade de volatilidade permanece excepcionalmente elevada por conta de riscos não relacionados a política monetária.

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais.