Não faltou assunto para a primeira semana de agosto, com destaques relevantes em todos os campos que movimentam mercados: política, política monetária, economia e setor externo. O movimento mais relevante fica evidentemente por conta da reunião do COPOM e a decisão de cortar a taxa de juros, renovando a mínima histórica em 2% da SELIC.

No cenário externo, os dados econômicos mostraram nova surpresa positiva com o mercado de trabalho americano. O Payroll divulgado hoje (sexta-feira, 07/08) registrou criação de 1.7 milhões de vagas de trabalho, o que levou a taxa de desemprego para 10.2%. Os dados são positivos para o mercado, pois mostra dinamismo maior do que suposto anteriormente na economia americana. Ainda assim, o estrago provocado pela pandemia na atividade permanece extremamente elevado.

Por outro lado, mantém-se a expectativa em relação ao pacote fiscal em negociação no Congresso americano. No momento em que escrevemos ainda não há notícias sobre acordo entre Democratas, Republicanos e a Casa Branca. Essencialmente, os riscos predominantes são que o pacote não chegue a ser aprovado, o que seria um fator consideravelmente negativo para a atividade econômica nos EUA. Para tanto, basta lembrar que houve um efeito renda muito positivo dos benefícios extras aprovados, principalmente para as classes de baixa renda.

Fora isto, questões geopolíticas também pesaram no noticiário semanal. A relação bilateral entre EUA e China deteriorou novamente no campo diplomático dadas as sinalizações que o governo americano tem feito ao governo de Taiwan. Por outro lado, vale mencionar que a relação comercial permanece intacta e espera-se para a próxima semana um encontro de lideranças de ambas as partes para discutir os avanços desde a implementação do acordo comercial do começo do ano.

No cenário interno, chamou atenção em Brasília a retomada do discurso em defesa de mais gastos por parte do governo federal, novamente encampado tanto por representantes do legislativo como e partes do executivo. Fato é que a manutenção do discurso em torno de mais gastos impacta na perspectiva da trajetória fiscal do país, o que tem valência negativa para o risco associado à economia brasileira.

O destaque da semana foi a divulgação da decisão da reunião do COPOM na quarta-feira. O Banco Central renovou a mínima histórica da taxa SELIC, cortando a taxa em 0.25% para 2%. Em linha com nossa expectativa, o comunicado não deixa a porta completamente fechada para novos cortes, mas alerta que não há obrigatoriedade nem em termos de quantidade de cortes, nem em termos de momento do corte. Assim, reforçamos a nossa projeção que a taxa SELIC chegará a 1.75% antes do final do ano.

Por outro lado, o comunicado também reforça os condicionantes de uma retomada do ciclo de alta, reforçando que isto não deve ocorrer a menos que tenhamos uma alteração significativa do cenário inflacionário ou das expectativas de inflação. Evidentemente, todas estas projeções são condicionadas a manutenção do rigor fiscal imposto pelo Teto de Gastos.

Assim, reforçamos a perspectiva de taxas de juros baixas por longo período de tempo, o que por sua vez segue respaldando nossa visão de que, no médio prazo, alocações em bolsa seguem interessantes. Em termos de juros, acreditamos que a manutenção da inflação baixa deva permitir em algum momento a convergência das taxas de juros longas, condicionado a manutenção de baixo risco fiscal e inflação bem-comportada. Finalmente, o dólar permanece como o ativo mais complexo a ser projetado. Se por um lado o dólar global parece enfraquecer, por outro lado há evidentemente a possibilidade de que a baixa taxa de juros e o fraco crescimento acabem levando a nova rodada de desvalorização. Para todas as nossas projeções, o risco preponderante (além, obviamente, da trajetória da pandemia) é a posição fiscal do país.Neste sentido, o avanço de medidas heterodoxas no congresso enseja cautela.

Por Felipe Sichel, estrategista.